Toda guerra começa antes da guerra. O Sarpa-Sattra nasce, em primeira instância, de uma aposta entre duas mulheres divinas — e da palavra que uma delas, em fúria, lançou contra os próprios filhos.
No princípio dos tempos do Mahābhārata, o ṛṣi Kaśyapa — pai dos deuses, dos demônios, das aves e das serpentes — desposou treze filhas de Dakṣa. Duas delas dividem este capítulo: Kadrū, mãe das mil serpentes, e Vinatā, mãe das aves do céu. Eram irmãs e co-esposas, e — como acontece com irmãs e co-esposas em todas as cosmogonias — foram, de algum modo, postas uma contra a outra.
O pretexto foi um cavalo. Quando os devas e os asuras agitaram o oceano de leite — o समुद्र-मन्थन samudra-manthana, a Batedura cosmogônica — emergiu das águas Uccaiḥśravas, o cavalo branquíssimo de sete cabeças, primeiro entre os equídeos do mundo. Kadrū e Vinatā o avistaram, e — porque irmãs sabem o sabor preciso da inveja uma da outra — apostaram sobre a cor de sua cauda. Vinatā jurava que era branca, branca como o resto. Kadrū jurava que era negra. A perdedora seria escrava da vencedora por um milênio.
Kadrū sabia, no íntimo, que a cauda era branca. E ordenou aos seus filhos serpentes que descessem ao corpo do cavalo e, com seus corpos negros, fingissem ser os pelos da cauda — para que ela vencesse pela trapaça. Alguns Nāgas, os mais nobres — entre eles Vāsuki, o que viria a ser rei das serpentes; entre eles, os letrados e os virtuosos —, recusaram. Recusaram a mentira ainda que ela viesse pela boca da própria mãe.
E é aqui que a história, que parece episódio doméstico, vira tragédia cósmica. Kadrū, ofendida pela desobediência, voltou-se contra os filhos que lhe disseram não — e os amaldiçoou nos seguintes termos: haveis de perecer todos no fogo de um sacrifício; um rei de Hastināpura, descendente de Bharata, vos lançará às chamas, e ali sereis consumidos. A maldição saiu de sua boca antes que ela mesma calculasse o que dissera. Os Nāgas — que tinham, recusando, salvado sua honra — foram os primeiros a se ver condenados.
Vāsuki reuniu então a corte subterrânea de Pātāla. Reuniu seus irmãos e irmãs: Śeṣa, o que sustenta o mundo; Takṣaka, o ardente; Karkoṭaka, o sombrio; Padma, Mahāpadma, Śaṅkha, Kulika. Reuniu Manasā, sua irmã. E reuniu Elāpattra, dos antigos.
Foi Elāpattra quem falou primeiro, e suas palavras, conta o Mahābhārata, vinham diretamente de uma audiência que ele havia obtido junto a Brahmā: a maldição não podia ser desfeita. Estava escrita. Era, afinal, uma maldição justa em sua injustiça — porque o universo precisava reduzir a multidão das serpentes más, das que matavam sem necessidade, e Kadrū, sem o saber, fora apenas o instrumento dessa redução. Mas, disse Elāpattra, os Nāgas virtuosos serão salvos: nascerá, em tempo certo, um filho de uma irmã sua, Vāsuki, com um sábio brâmane chamado Jaratkāru — e esse filho, quando ainda menino, deterá o sacrifício antes que ele consuma os justos.
Os Nāgas, então, não combateram a maldição: prepararam o seu antídoto. E o antídoto tinha o nome de uma criança que ainda não havia nascido — Āstīka.
Antes que um rei sonhasse com um sacrifício, um arqueiro e um vaqueiro acenderam, a pedido do fogo, uma floresta. Nessa floresta, vivia o rei das serpentes — e dele Kṛṣṇa e Arjuna mataram quase tudo.
Saltamos eras. Os Pāṇḍavas haviam recebido, partilhado o reino, a metade árida, e fundavam Indraprastha. Agni, o deus do fogo, padecia de uma indigestão cósmica: oferecera-se demasiadas vezes nos altares dos homens e perdera o fulgor primordial. Para curar-se, precisava devorar uma floresta inteira — e queria justamente Khāṇḍava, ao norte de onde os irmãos construíam sua nova capital.
O obstáculo era político. Khāṇḍava estava sob a proteção pessoal de Indra, rei dos deuses, que ali tinha um amigo: Takṣaka, o senhor das serpentes — o mesmo Takṣaka cujo trono submarino se erguia em Pātāla, o mesmo que, séculos depois, seria peça central de toda esta tragédia. Indra protegia a floresta com chuvas, e a chuva apagava qualquer fogo. Para que Agni a devorasse, era preciso alguém capaz de impedir que as nuvens a alcançassem.
Foram Kṛṣṇa e Arjuna. Receberam de Agni armas divinas — o arco Gāṇḍīva, a clava Kaumodakī, o disco Sudarśana — e armaram, em volta de Khāṇḍava, uma cúpula de flechas tão densa que nem uma gota de chuva, nem uma única criatura voadora ou rastejante, conseguia atravessá-la. Acenderam o fogo. E mantiveram, por horas, a cúpula inteira.
Tudo o que vivia em Khāṇḍava ardeu. Crias na boca das mães, ovos não eclodidos, ascetas em meditação, nāgas nas tocas. Takṣaka, por sorte ou destino, não estava em casa naquele dia — estava em Kurukshetra, a negócios. Mas sua esposa estava. E seu filho, Aśvasena, também.
Quando o fogo desceu sobre o ninho dos Takṣakas, a serpente-mãe fez o cálculo último de toda mãe sob fogo: engoliu o filho. Engoliu Aśvasena pela cabeça, escondendo-o na própria garganta, e tentou fugir pelo céu. Arjuna, do alto do carro, viu a serpente subir; viu apenas a fuga, não a maternidade. E disparou.
A flecha cortou a serpente-mãe na altura do pescoço — e Aśvasena, o filho, foi cuspido para o céu pelas mandíbulas decepadas, e escapou. Sobreviveu. E não esqueceu nada.
Da família de Takṣaka — esposa, filhos, primos, conselheiros — sobraram dois: o próprio Takṣaka, ausente, e Aśvasena, regurgitado pelo fogo. Os outros, todos, viraram cinzas brancas no chão de Indraprastha.
Aqui, é preciso pausar. Khāṇḍava-dāha é o trauma original. É a primeira injustiça registrada no Mahābhārata contra os Nāgas — uma injustiça executada pelas próprias mãos dos heróis cuja história o épico canta. Os Pāṇḍavas, fundadores da capital, fundaram-na sobre um genocídio. E Takṣaka, voltando de viagem para encontrar o reino-floresta reduzido a brasa e a esposa decepada no ar, escolheu — como escolheria, três gerações depois, qualquer um de nós — o caminho da memória longa.
O sacrifício do Sarpa-Sattra é, portanto, simétrico ao Khāṇḍava-dāha. Um yajña de fogo arde como vingança contra outro yajña de fogo. A cúpula que Arjuna ergueu em torno da floresta tem o mesmo desenho da cúpula que seu bisneto Janamejaya erguerá em torno do altar. As serpentes que então arderam sem nome arderão, agora, chamadas pelo nome. O fogo não esquece.
Vinte e quatro anos depois da grande guerra. Parikṣit, neto de Arjuna, governa um reino em paz. Sai à caça num dia de calor — e, esse dia, sem que ninguém o avise, é o dia em que o passado vem cobrar sua dívida.
Parikṣit nasceu morto. Foi a última flecha-vingança de Aśvatthāmā que o atingiu no ventre da mãe, no apagar dos restos da guerra de Kurukṣetra, e foi Kṛṣṇa quem o ressuscitou — diz o épico — entrando no útero ele mesmo, em forma de luz, para fazer a criança respirar. Foi por isso, talvez, que o menino cresceu de têmpera incomum: sereno, justo, devoto. Tornou-se rei dos Kurus em Hastināpura. Reinou bem. Casou-se. Teve um filho — Janamejaya, o que arderia.
Mas reis caçam. E em certo dia, perseguindo um veado pelas matas além do Ganges, Parikṣit perdeu-se da escolta. O sol descia. A garganta queimava. Avistou, sob uma árvore, um asceta sentado na perfeita imobilidade do mauna-vrata — o voto de silêncio. Era Śamīka, sábio de fama longa.
Parikṣit pediu água, pediu direção, pediu uma palavra. O sábio, em voto, não respondeu. Os ouvidos do rei, esgotados pela caça, ouviram — em vez do silêncio sagrado de uma promessa religiosa — desprezo. Ouviram desdém. O rei pensou que estava sendo ignorado por orgulho.
Inclinou-se sobre uma cobra morta no caminho — esquelética, ressecada, sem veneno e sem ameaça. Levantou-a com a ponta do arco. E, num gesto que ele mesmo não terminaria de entender enquanto vivesse, depositou a serpente morta sobre os ombros do sábio em meditação. E partiu.
Śamīka não abriu os olhos. Permaneceu, com a cobra fria sobre o pescoço, em sua imobilidade votiva. Mas o sábio tinha um filho.
O filho chamava-se Śṛṅgī. Era jovem, era brilhante, era — como os jovens brilhantes — refém da própria potência. Voltava da escola e topou no caminho com um colega chamado Kṛśa, que, com a perfídia precisa dos meios-amigos, deu-lhe a notícia.
"Onde está o teu fogo agora, Śṛṅgī, ó filho de tapas e de jejuns? O teu pai, o grande, está sentado lá com uma cobra podre nos ombros, posta ali por um rei caçador. E tu, com todos os teus mantras, não fazes nada?"
Śṛṅgī não pediu detalhes. Não foi falar com o pai. Não checou. A cólera saltou nele como sobe a chama em palha seca. Tomou água do rio nas duas mãos, ergueu-a aos céus, e disse — em voz alta, em voz que selava — as palavras que a história faria repetir:
Śamīka, voltando à fala depois do voto, soube por um discípulo o que o filho havia feito. Não escondeu a tristeza: explicou a Śṛṅgī que Parikṣit era um bom rei, que reis bons protegem os ascetas, que o ascetismo só era possível porque o rei impunha a lei, e que uma maldição daquele porte, lançada por um menino contra um governante justo, era — em si mesma — um pecado contra o dharma. Mandou um mensageiro a Hastināpura: vai ao rei e diz-lhe que se prepare; meu filho falou demais, mas o que ele falou já se cumprirá.
O rei, ao ouvir, não desabou. Talvez se tenha lembrado, naquele instante, do bisavô Arjuna, e da floresta que ele havia queimado, e de quanto fogo um clã pode acender ao longo das gerações sem nunca terminar de pagar. Construiu, sobre uma única coluna no meio de um lago, um pavilhão sem portas; encheu-o de mantras, de antídotos, de magos. E ali se trancou, esperando os sete dias passarem.
A morte de um rei marcada para a sétima noite. Um pavilhão sem portas. Um mestre dos venenos correndo para salvá-lo. Uma serpente que conhece o preço de tudo. E, no fim, uma fruta com um pequeno verme dentro.
O Mahābhārata, ao narrar a aproximação dos sete dias, faz algo curioso: não corre. Demora. Dá-nos a câmera lenta. Sabe que o leitor — como Parikṣit — está esperando, e quer fazer-nos sentir cada hora.
Falemos do dia sexto, porque dele depende tudo. Kāśyapa — não o pai dos Nāgas, mas um descendente homônimo, brâmane mestre de venenos — havia tido, em sonho ou em adivinhação, a notícia da maldição. Avaliou suas próprias forças e disse: posso curar isso. Reuniu suas ervas, seus mantras, seus pós, e pôs-se a caminho de Hastināpura.
Takṣaka, vindo do sentido oposto, viu-o de longe. Não o reconheceu de imediato; mas reconheceu o porte de quem caminha com um propósito. Tomou forma de velho brâmane e foi-lhe ao encontro, perguntando aonde ia.
Takṣaka soprou seu veneno sobre uma figueira ao lado da estrada. A árvore — folhas, tronco, raízes, ninhos, seiva — virou um monte de cinza branca em segundos. Kāśyapa olhou para o que restava, ajoelhou-se, recitou seus mantras, espalhou suas ervas. As cinzas foram, lentamente, virando semente. A semente brotou em rebento. O rebento subiu em galho. Os galhos vestiram-se de folhas. Em poucos minutos, a figueira estava de pé outra vez, viva, com pássaros assustados voltando aos ninhos refeitos.
Kāśyapa fez seus cálculos. Pesou: a vida de um rei contra o destino já escrito; a sua arte contra a contabilidade dos astros; o seu juramento médico contra uma fortuna que nunca veria de outro modo. Aceitou o ouro. Voltou. A estrada para Hastināpura ficou aberta.
É um dos momentos mais brutais e mais subestimados do épico. Não é o momento da picada que mata Parikṣit; é o momento em que o veneno é deixado livre — porque o homem que poderia neutralizá-lo escolheu o ouro. O Mahābhārata não condena Kāśyapa explicitamente. Limita-se a deixá-lo na estrada, contando moedas, enquanto a câmera segue Takṣaka.
Chega então a sétima manhã. Parikṣit acordou em sua torre — e achou que tinha vencido. Faltavam horas para o anoitecer. Os antídotos estavam à mão. Os mantras tinham sido recitados. Sentiu-se, talvez pela primeira vez naquela semana, leve. Mandou trazer fruta. Um cesto de figos chegou — oferecido por brâmanes peregrinos que pediam audiência (eram, é claro, nāgas em forma humana, enviados por Takṣaka). Os guardas examinaram o cesto. Examinaram cada figo. Não viram nada.
Parikṣit pegou um figo. Abriu-o. Encontrou, dentro, um pequeno verme escarlate — um vermezinho, do tamanho de uma unha, sem ameaça nenhuma. Olhou para o verme. Olhou para os ministros. E sorriu. Pela primeira vez em sete dias, sorriu.
"Ah" — disse, com a leveza desafiadora do homem que se julga salvo — "o sol já desce; a maldição é para hoje; e eis o sétimo dia quase a se fechar. Então venha, ó verme — sê tu o Takṣaka da minha maldição. Morde-me, para que a profecia seja, ao menos, simbolicamente cumprida."
E pôs o verme sobre o pescoço.
O verme cresceu. O verme inchou. O verme, em três respirações, era a serpente Takṣaka, com sete capelos abertos, em pé sobre o ombro do rei. E mordeu-o.
O veneno do rei das serpentes não dá tempo. Parikṣit pegou fogo de dentro para fora; o palácio inteiro, em torno dele, pegou fogo de fora para dentro. Takṣaka subiu pelo ar, em chamas vermelhas, deixando para trás cinzas de um rei e cinzas de uma corte. Os ministros, do lado de fora, viram-no atravessar o céu como um meteoro escarlate em direção a Pātāla.
Janamejaya, ainda menino, herdou o trono naquele mesmo crepúsculo. Os ministros não lhe contaram, durante anos, como o pai havia morrido — apenas que havia morrido. O ódio precisava de tempo para ser plantado.
Janamejaya, agora homem, descobre como seu pai morreu. Um asceta vingativo lhe traz a notícia que os ministros lhe ocultaram. E ele decide — porque é rei, porque tem fogo, porque tem brâmanes que sabem o mantra certo — eliminar a espécie inteira que matou seu pai.
O homem que vai à corte de Janamejaya e lhe abre os olhos chama-se Uttaṅka. Tem sua própria mágoa contra Takṣaka, da qual aqui não nos importa o detalhe — basta dizer que Takṣaka, em algum momento, lhe roubou um par de brincos divinos. Uttaṅka chega à corte, recebe a hospitalidade do rei jovem, e, em vez de agradecer com bênção, o esbofeteia com a verdade.
Janamejaya, que crescera sem o saber, ouviu de seus próprios ministros — convocados naquela mesma audiência — a narrativa que lhe havia sido sonegada: o insulto do pai, a maldição de Śṛṅgī, a estrada onde Kāśyapa fora subornado, o figo, o verme, o fogo, a fuga de Takṣaka pelos céus. Ouviu calado. E a fúria que se levantou nele não foi a fúria fácil dos jovens; foi aquela fúria fria, dinástica, que se traduz em projeto.
Convocou os melhores ṛtviks, sacerdotes-celebrantes do Veda. Perguntou-lhes se existia, dentro do imenso repertório dos sacrifícios védicos, um yajña capaz de matar não um animal, não um inimigo, mas uma espécie inteira. Os brâmanes consultaram-se. Sim — disseram —, existe.
Construíram. Levantou-se em Takṣaśilā, ou — segundo outras tradições — perto de Hastināpura, no campo onde mais tarde se ergueria o templo de Parikṣit, uma plataforma sacrificial sem precedentes. Pedras quadrangulares marcando os pontos cardeais. Um fosso central onde o fogo devorador foi aceso com lenha de śamī e palāśa. Dezenas de sacerdotes, vestidos de pele de antílope. Manteiga clarificada — ghṛta — em recipientes de cobre. E, em volta, uma muralha de mantras tão estanque quanto a cúpula de flechas que Arjuna erguera, três gerações antes, sobre Khāṇḍava.
Janamejaya, purificado pelos ritos preliminares, cabelos rapados, vestido de branco, sentou-se no lugar do yajamāna — o senhor do sacrifício, aquele em cujo nome o fogo come. À sua direita, o sacerdote hotṛ, o que verte. À sua esquerda, o adhvaryu, o que recita. À frente, o brahman, o silencioso, supervisor de todos os erros possíveis.
O fogo foi aceso. E os mantras começaram.
Diz-se que, ao primeiro mantra, três serpentes pequenas — habitantes de campos próximos — sentiram um calor estranho na espinha. Tentaram fugir; descobriram que não podiam. Foram puxadas como ferro pelo ímã, levantadas no ar, e atiradas, contorcendo-se, na fogueira central. Arderam num instante.
Ao segundo mantra, vieram dezenas. Ao terceiro, centenas. Ao quinto, um céu inteiro de serpentes — cobras, jiboias, najas, naginhas-de-jardim, kraitas, pítons gigantes do sul, mambas-douradas do norte — escurecia o ar sobre o altar como uma chuva escura, e desabava em cataratas vivas no fogo, com um som que os cronistas comparam a uma única respiração imensa abafando-se.
Em Pātāla, Vāsuki sentiu a primeira mordida do mantra na espinha de seu próprio povo. Reuniu, em pânico, a corte. Não havia tempo. O sacrifício estava começando.
Vāsuki — porque era o rei e porque havia um plano antiquíssimo a ser ativado — olhou para sua irmã. Para Manasā-Jaratkāru, mulher do sábio Jaratkāru, a serpente-deusa cujas chuvas, em Bengala, hoje ainda a invocam contra picadas. Disse-lhe, num só sopro: é agora. Vai. Chama o teu filho. Lembra-lhe quem é.
Manasā partiu para a floresta onde seu filho — abandonado pelo marido pouco antes do parto, criado por ela e pelas serpentes do palácio submarino — havia se tornado um sábio jovem, brâmane consumado, conhecedor dos Vedas, da natureza paterna e do ascetismo paterno, mas sem saber, ainda, qual era a sua tarefa neste mundo.
Para deter um sacrifício de extermínio, era preciso alguém que pertencesse aos dois lados — alguém em cujo sangue corressem, ao mesmo tempo, o veneno ancestral dos Nāgas e o sopro brâmane dos Vedas. Esse alguém precisou ser fabricado, durante eras, de propósito.
Recuemos. O caso de Jaratkāru, o sábio, é uma das histórias mais discretamente perfeitas do épico. Era um asceta absoluto: voto de celibato, voto de pobreza, voto de não-lar. Andava pelo mundo descalço, comendo o que caía, calado o quanto podia. Seu único cuidado era acumular tapas — calor ascético, mérito.
Um dia, atravessando uma caverna, viu cinco vultos pendurados de cabeça para baixo num precipício, presos a uma única raiz, sobre o vazio. Aproximou-se. Os vultos eram seus próprios ancestrais — os pitṛs, os antepassados, os antigos da sua linhagem. E a raiz que os sustinha era roída, pelo lado de cima, por um rato.
Jaratkāru não pôde recusar. Mas, asceta como era, impôs três condições: a esposa havia de ter o mesmo nome que ele (porque um asceta só pode chamar pelo próprio nome); havia de lhe ser dada de presente, sem dote (porque ele era pobre e não pagaria); e jamais ele havia de sustentá-la (porque ele não tinha onde, e a vida ascética não comporta um lar).
Jaratkāru — homem — pôs-se a vagar à procura de mulher chamada Jaratkāru, que ninguém pagasse para ter, e que estivesse disposta a casar-se com um homem que não a manteria. Por meses, riram dele em todas as casas. Tornou-se quase fábula.
Foi quando Vāsuki, que monitorava cada movimento desse ascetismo solitário — porque os Nāgas, lembremos, sabiam por Elāpattra qual era o nome do filho que precisaria nascer — ofereceu-lhe sua irmã. Cujo nome era, justamente, Jaratkāru. (Em tradições posteriores, e principalmente nos Purāṇas, ela é conhecida por outro nome: Manasā, a serpente-deusa popular de Bengala, do Assam, do Bihar.)
Brâmane errante, asceta dos votos extremos. Na Mahābhārata, é descrito como capaz de viver só de ar; suas penitências o tornaram quase incandescente. Casou-se contrariado, viveu casado pouco, abandonou a esposa antes do parto.
É a representação pura do tapas brâmane: erudição védica condensada em corpo magro. Suas únicas duas falhas — orgulho e impaciência — serão herdadas pelo filho como dons depurados.
Princesa dos Nāgas, irmã do rei Vāsuki, filha — em algumas versões — do próprio Kaśyapa com Kadrū. Em outras, filha do esperma de Śiva caído sobre uma estátua de barro modelada por Kadrū. É a serpente-deusa que, mais tarde, terá templo próprio em Bengala, com festival anual nas chuvas.
Casou para cumprir profecia. Foi humilhada, abandonada, e — ainda assim — gerou o filho que parou o fogo. Toda a estratégia teológica do Sarpa-Sattra passa pelo seu útero.
O casamento durou pouco. Jaratkāru-pai havia exigido um quarto voto: a esposa não poderia, jamais, contrariá-lo em nada. Jaratkāru-mãe — Manasā — concordou. Viveram juntos meses curtos. Numa tarde, ele dormia com a cabeça no colo dela; o sol descia, e era hora dele acordar para o ritual do crepúsculo. Ela hesitou: acordá-lo era, talvez, perturbá-lo (e contrariar). Não acordá-lo era deixar-lhe escapar o ritual (e também contrariar). Escolheu acordá-lo, pelo menor mal. Ele acordou furioso, deu a hesitação por desobediência, e — sem se despedir — partiu da cabana, afirmando que ela carregava no ventre, já, o filho que precisaria nascer; sua tarefa estava cumprida; e ele jamais voltaria.
Não voltou. Manasā voltou para Pātāla. Pariu o menino entre as serpentes. Chamou-lhe Āstīka — palavra sânscrita que significa, mais ou menos, aquele que é, aquele que afirma, aquele que diz: existe. (O contrário de nāstika, o niilista.)
O menino cresceu na corte submarina. Aprendeu Vedas com os mestres da família paterna; aprendeu as línguas das serpentes com a família materna. Era cordial, ponderado, precoce. Não lhe contaram, durante toda a infância, qual era a sua função. Vāsuki e Manasā tinham essa sabedoria: deixar a tarefa amadurecer dentro do menino sem nome. Esperar.
Quando os mantras de Janamejaya começaram a puxar serpentes para o fogo, e Vāsuki sentiu, em sua própria espinha, o tremor da convocação — porque ele também era nomeado, e seu nome também o puxaria, em horas, em direção ao altar — Manasā correu ao filho. Encontrou-o na biblioteca de Pātāla, lendo o Yajurveda. Sentou-se diante dele, tomou-lhe as mãos, e pela primeira vez em dezesseis anos contou-lhe, do começo ao fim, a história inteira: a aposta de Kadrū, o cavalo branco, a maldição, Khāṇḍava, Parikṣit, Śṛṅgī, o figo, Janamejaya, e o fogo que agora ardia em Hastināpura puxando para si as serpentes da terra.
O menino — que já era homem, mas pouco — fez três coisas em sequência: pôs as mãos sobre a cabeça da mãe; pegou seu cajado; e partiu.
A criança chega ao altar enquanto Vāsuki — atraído pelo mantra — começa a cair do céu em direção ao fogo. Tudo se decide nos minutos que separam o nome de Vāsuki, dito pelo sacerdote, e o seu corpo, atirado nas chamas.
Āstīka chegou às portas do recinto sacrificial e os porteiros lhe barraram a entrada. Era cerimônia fechada; só brâmanes sêniores e ministros do reino. A criança, sem se intimidar, ergueu a voz e começou a recitar — em sânscrito impecável — uma sequência de versos em honra do rei, do yajña, dos sacerdotes presentes, dos antepassados Pāṇḍavas, e do próprio Janamejaya. Falava com tal precisão métrica, com tal beleza de aliterações, que os brâmanes pararam de cantar. Janamejaya, do trono, virou a cabeça.
A entrada foi-lhe concedida. Atravessou o pátio sob os olhares; foi até o altar; e, postando-se diante do rei, continuou a louvação — comparando o sacrifício atual àqueles dos antigos reis, comparando Janamejaya a Indra, a Yama, a Varuṇa, num crescendo retórico que transformava cada metáfora em escada subindo. Ao fim do discurso — que durou, dizem os comentadores, entre vinte minutos e uma hora —, Janamejaya, comovido, ofereceu-lhe um vara: um voto, um pedido, uma graça.
O silêncio que se abateu sobre o pátio é, talvez, o silêncio mais carregado do Mahābhārata inteiro. Os sacerdotes pararam o canto. Os ministros olharam para Janamejaya. Janamejaya olhou para o céu — onde, naquele exato instante, podia-se ver, segundo os relatos, o corpo branco de Vāsuki sendo puxado pelo mantra, descendo do alto, contorcendo-se, a poucos metros da fogueira. Mais alguns segundos.
Dentro de Janamejaya, três vozes brigaram em paralelo:
— A primeira era a voz do filho órfão, do menino que cresceu sem pai, daquele cuja vingança era, enfim, possível. Essa voz dizia: não. Faltam horas. Takṣaka ainda não veio. Sem Takṣaka, este sacrifício é incompleto. Recuso.
— A segunda era a voz do rei dharma-bound, do governante a quem os Vedas ensinaram que um vara oferecido é um vara que precisa ser honrado. Um rei que recua de um voto torna-se sub-rei. Essa voz dizia: tu prometeste; cumpre.
— A terceira — e essa, dizem os comentadores, foi a decisiva — era a voz do velho Vyāsa, sentado entre os assistentes, que àquela altura olhava Janamejaya com a serenidade dos que conhecem o roteiro inteiro. Vyāsa não falou. Apenas inclinou a cabeça, lentamente, em direção a Āstīka. Concede.
Janamejaya hesitou ainda. Tentou negociar: peça outra coisa, qualquer outra; teu pedido vem em mau momento. Āstīka recusou: peço só isto. Os sacerdotes, vendo a hesitação real, ofereceram um expediente — pelo menos, deixe-nos completar o mantra que está sendo pronunciado, pelo menos Takṣaka. Mas Āstīka — e nisto, segundo os comentários védicos, está toda a sua superioridade ética — recusou também: não. Agora. Antes que mais um caia.
Janamejaya, finalmente, ergueu-se. Estendeu a mão sobre o fogo. E disse — segundo a fórmula védica que interrompe um yajña — as palavras que congelam um sacrifício no exato instante em que são proferidas: tatas tūṣṇīm — silêncio agora; silêncio sobre o fogo.
O mantra parou. O fogo continuou ardendo, mas perdeu, naquele segundo, sua propriedade magnética. Vāsuki — que estava a três corpos da fogueira, suspenso no ar, contorcendo-se — caiu, sim, mas para o lado. Caiu no chão, e não no fogo. Ficou ali, ofegante, branco de medo e de fumaça. Vivo.
Takṣaka — que, é preciso dizer, vinha sendo puxado também, de Pātāla, e que iria, em algum minuto seguinte, cair finalmente nas chamas para fechar a vingança que originara tudo — foi liberado. Não foi morto. Não foi queimado. Foi devolvido, ileso, a seu trono submarino. Janamejaya, em obediência ao voto, abdicou da vingança que era o motivo do sacrifício.
Foi nesse instante — cinzas ainda quentes, Vāsuki estendido no chão, Āstīka em pé entre o rei e o altar, os sacerdotes em silêncio — que Vyāsa se levantou. Caminhou até Janamejaya. Sentou-se ao seu lado. E disse, na voz baixa de quem oferece, em vez de uma vingança, uma história:
Senhor, agora que tu não terás a memória do extermínio, deixa-me dar-te outra memória. Deixa-me, em vez do incêndio, contar-te a história inteira da tua linhagem — quem foi teu bisavô, qual a guerra que ele lutou, por que essa guerra precisou acontecer, e como dessa guerra nasceu o teu pai. Eu a compus em cem mil versos. Vai levar dias. Mas, ouvindo-a, tu compreenderás por que esta hora terminou como terminou — e por que, em algum sentido profundo, ela tinha que terminar assim.
Vyāsa pediu então a um discípulo, Vaiśampāyana, que recitasse o épico. E foi assim — ali, no terreno do sacrifício interrompido, com Vāsuki ainda ofegando no chão e Āstīka sentado em silêncio aos pés do rei — que o Mahābhārata foi recitado pela primeira vez em público.
Cada cultura precisa, em algum momento, contar a si mesma a história em que parou de matar. Esta é a versão indiana — em chamas, em ouro, em criança, em mantra, em escolha.
Resta-nos, agora, tirar a moral — não no sentido didático, mas no sentido em que os antigos a tiravam: como cinzas que se passam pela testa depois do yajña, marca de quem sobreviveu ao fogo.
Há, no Mahābhārata, uma observação discreta sobre o que aconteceu depois. Janamejaya não voltou a falar em vingança contra os Nāgas. Casou-se. Reinou longamente. Construiu, em homenagem ao pai, um templo onde se ofereciam, todos os anos, leite e flores às serpentes. A primeira inscrição desse templo, segundo a lenda, dizia: aqui se encerrou um fogo que poderia ter sido infinito; aqui um menino, com uma única frase, salvou um mundo.
E há, sobre Āstīka, uma tradição posterior que merece menção: dizem que sua presença, mesmo após a morte, dissolve a picada de qualquer serpente. Por isso, ainda hoje, em vilarejos do subcontinente, mães rezam ao filho dormente, antes que ele saia descalço pela manhã: āstīka, āstīka, āstīka — três vezes, em sequência. Aquele que é. Aquele que afirma. Aquele que disse, num altar de fogo, que existe, sim, um motivo para parar.
Que o fogo, quando aceso por vingança,
encontre uma criança em sua porta.
Que essa criança, falando devagar,
diga ao rei a única palavra que apaga.
E que, na cinza, em vez de mais cinza,
brote uma história que dure cem mil versos.