Três mil anos de pensamento humano organizados em uma única bibliografia visual. Da Índia védica aos pré-socráticos, dos Sete Sábios a Sócrates, de Tomás de Aquino a Wittgenstein — uma travessia das ideias que moldaram como pensamos.
Antes do silogismo, antes do cogito, antes do método — a pergunta.
Filosofia é uma palavra grega: philo-sophia, "amor à sabedoria". Mas o pensamento que ela nomeia é mais velho que o nome. Quando Pitágoras (séc. VI a.C.) cunhou o termo, monges hindus já meditavam sobre a unidade do ātman e do brahman há séculos; Zaratustra havia anunciado o conflito cósmico entre Ahura Mazda e Ahriman; Lao Tsé contemplava o tao; Confúcio organizava a virtude social. O século VI a.C. foi um ano-charneira simultâneo em três continentes — o que Karl Jaspers chamaria de "Era Axial".
Este atlas tenta fazer justiça a essa simultaneidade. Em vez de começar com Tales de Mileto, como faz a maioria dos manuais, começa pela Índia védica. Em vez de pular dos pré-socráticos para Sócrates, demora-se nos Sete Sábios e em figuras semilendárias como Ferécides de Siros e Epimênides de Creta. Em vez de tratar a filosofia oriental como apêndice, reconhece-a como tradição paralela e contínua.
A filosofia começa no espanto.— Aristóteles, Metafísica 982b
O fio condutor é a pergunta: o que existe? como sabemos? como devemos viver? como organizar a vida em comum? como pensar o pensamento? Cada era responde de um jeito; cada escola dentro de uma era diverge das outras. O atlas organiza esse mapa em 12 eras, lista os pensadores centrais de cada uma com país, datas e obras-marco, identifica as escolas filosóficas e os ramos da disciplina, e termina com os conceitos sem os quais nada disso faz sentido.
A filosofia não nasceu em um lugar só — ela emerge simultaneamente em três continentes.
A mais antiga tradição filosófica contínua do mundo. Originária dos hinos do Rigveda e elaborada nos Upanishads. Seis escolas ortodoxas (darshanas) e tradições heterodoxas (jainismo, budismo, charvaka).
Centrada na questão de como viver bem em sociedade e em harmonia com o dao (caminho). Cem Escolas no período clássico; três grandes tradições: confucionismo, taoismo e legalismo.
Originária com Zaratustra (Zoroastro), profeta da religião zoroastrista. Dualismo cósmico entre Ahura Mazda (luz/bem) e Ahriman (escuridão/mal). Influenciou judaísmo, cristianismo e gnosticismo.
A tradição que cunhou o nome "filosofia". Começa com os Sete Sábios e os pré-socráticos jônios. Atinge o ápice com a tríade Sócrates-Platão-Aristóteles. Ramifica-se em escolas helenísticas e dialoga com Roma.
Emerge da tradição profética e dos textos sapienciais bíblicos (Provérbios, Eclesiastes, Jó). Filón de Alexandria funde-a com Platão. Maimônides medieval responde a Aristóteles. Espinosa fundamenta a modernidade.
Floresce no Califado de Bagdá com a recepção dos textos gregos. Sintetiza Aristóteles e Platão com o Corão. Avicena e Averróis influenciam toda a escolástica latina cristã. Filosofia mística sufi prossegue até hoje no Irã.
Emerge da síntese entre Cristianismo, Platão (patrística) e Aristóteles (escolástica). Agostinho funda a tradição latina; Tomás de Aquino sistematiza a escolástica.
Tradições etíopes (Zera Yacob, séc. XVII), tradições orais (sabedoria akan, yoruba, dogon), filosofia da libertação no séc. XX. Egito antigo é matriz cultural reivindicada por toda a tradição africana.
Três milênios em uma linha do tempo — do Indo aos algoritmos.
A mais antiga camada da filosofia indiana. Os Vedas (1500–500 a.C.) são hinos rituais, mas neles já germinam perguntas cosmogônicas. Os Upanishads (800–300 a.C.) inauguram o questionamento metafísico: o que é o real? quem sou eu? Identifica-se ātman (eu) e brahman (absoluto).
Em três continentes simultaneamente: Zaratustra na Pérsia anuncia o dualismo cósmico; profetas hebreus elaboram a sabedoria do Antigo Testamento; gimnosofistas (filósofos nus) hindus impressionam até Alexandre, o Grande. Pré-filosofia em sentido técnico, mas matriz das três grandes tradições monoteístas.
Karl Jaspers cunhou o conceito: entre 800–200 a.C., emergem em paralelo Confúcio e Lao Tsé na China, Buda e Mahavira na Índia, Zaratustra na Pérsia, profetas em Israel, e os pré-socráticos na Grécia. Pela primeira vez, o ser humano se torna objeto de reflexão sistemática.
Tales de Mileto inaugura a tradição grega perguntando: qual é o princípio (arché) de todas as coisas? Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito, Parmênides, Empédocles, Demócrito, Pitágoras, Anaxágoras — cada um responde de um jeito. Já aparecem Sete Sábios, Ferécides de Siros, Epimênides de Creta.
Atenas no século V e IV a.C. Sócrates inaugura a filosofia ética com a maiêutica e morre tomando cicuta. Platão funda a Academia e escreve diálogos. Aristóteles funda o Liceu, sistematiza lógica, ética, política, metafísica, biologia. A trindade que define toda a filosofia ocidental posterior.
Após a morte de Alexandre, a pólis grega perde sua centralidade. A pergunta filosófica vira: como viver bem? Quatro grandes escolas: epicurismo, estoicismo, ceticismo e cinismo. Em Roma, Cícero adapta para o latim. Plotino funda o neoplatonismo.
Pais da Igreja sintetizam Cristianismo e filosofia grega — sobretudo Platão. Agostinho de Hipona é a figura central: Confissões e A Cidade de Deus. Boécio, Pseudo-Dionísio Areopagita, Orígenes preparam a recepção medieval. Filosofia subordinada à teologia, mas com ousadia conceitual.
Bagdá (Avicena, Averróis, Al-Farabi) recupera Aristóteles; o Ocidente o recebe via traduções do árabe. Anselmo formula o argumento ontológico. Tomás de Aquino constrói a Suma Teológica. Duns Scotus, Guilherme de Ockham. Fim da era: Renascimento e nominalismo.
Descartes inaugura: "cogito ergo sum". O sujeito pensante torna-se ponto de partida. Racionalismo continental (Descartes, Espinosa, Leibniz) e empirismo britânico (Bacon, Hobbes, Locke, Berkeley, Hume) formam dois polos. Rousseau, Voltaire, Diderot — Iluminismo. Kant fará a síntese.
Kant muda o cenário com as três Críticas. Daí em diante: idealismo alemão (Fichte, Schelling, Hegel), materialismo (Feuerbach, Marx), niilismo (Nietzsche), pessimismo (Schopenhauer), positivismo (Comte), pragmatismo americano (Peirce, James, Dewey). Kierkegaard prepara o existencialismo.
Século XX se cinde em duas correntes: analítica (Frege, Russell, Wittgenstein, Quine, Kripke) e continental (Husserl, Heidegger, Sartre, Merleau-Ponty, Foucault, Derrida). Em paralelo: Escola de Frankfurt (Adorno, Horkheimer, Benjamin), feminismo filosófico (Beauvoir).
Rorty propõe pós-filosofia, Habermas defende racionalidade comunicativa, Rawls reconstrói a filosofia política, Nussbaum funda a ética das capacidades, filosofia africana e latinoamericana ganham voz, Singer expande a ética animal, Chalmers e Dennett discutem consciência, e a IA recoloca antigas questões em termos novos.
Setenta nomes que moldaram o pensamento humano, organizados cronologicamente.
Sábio do Brihadaranyaka Upanishad. Primeiro a articular sistematicamente a doutrina do ātman (eu interior idêntico ao absoluto). Pioneiro da metafísica monista.
Profeta persa. Anunciou Ahura Mazda como deus único da luz e do bem, em conflito cósmico com Ahriman (mal). Inspirou monoteísmo posterior e o conceito de juízo final.
Figura semilendária. Autor atribuído do Tao Te Ching, livro sobre o tao (caminho), o wu wei (não-ação), a harmonia com a natureza. Fundador do taoismo.
Mestre Kong. Sistema ético-político baseado em ren (humanidade), li (ritual), respeito hierárquico. Definiu a cultura chinesa por dois milênios. Suas Analectos (compiladas por discípulos) são manual prático de virtude.
Siddhartha Gautama, "O Desperto". Quatro Nobres Verdades, Caminho Óctuplo, doutrina do anatta (não-eu). Rejeitou o sistema de castas e os Vedas. Fundou tradição que se espalhou pela Ásia.
Contemporâneo de Buda. Reformou o jainismo, religião não-violenta radical. Doutrina do ahimsa (não-violência absoluta), anekantavada (multiplicidade de perspectivas).
Primeiro dos Sete Sábios e tradicionalmente o primeiro filósofo. Propôs que a água é o princípio (arché) de todas as coisas. Previu o eclipse solar de 585 a.C. Astrônomo, geômetra, comerciante.
Legislador ateniense, poeta, um dos Sete Sábios. Reformou as leis e a constituição de Atenas, criou as bases da democracia. Cunhou o aforismo "nada em excesso" (mēden agan).
Um dos Sete Sábios. Famoso pelo aforismo "omnia mecum porto mea" (carrego comigo tudo o que é meu) — quando Priene foi tomada, ele saiu sem nada material, dizendo que a sabedoria era tudo o que precisava.
Um dos Sete Sábios e éforo de Esparta. Atribui-se a ele a inscrição délfica "gnōthi seautón" (conhece-te a ti mesmo) e "mēden agan" (nada em excesso).
Mestre de Pitágoras. Autor de uma das primeiras cosmogonias gregas em prosa, com triade primordial Zás-Chronos-Chthonie. Considerado por alguns o primeiro pensador entre mito e filosofia.
Figura semilendária cretense. Atribui-se a ele o paradoxo do mentiroso ("Todos os cretenses são mentirosos") e teria dormido por 57 anos numa caverna. Citado em coríntios pelo apóstolo Paulo.
Cunhou a palavra "filósofo" (amante da sabedoria). Fundou comunidade religiosa-matemática em Crotona (sul da Itália). Doutrina: o número é o princípio de tudo. Primeiro a propor harmonia das esferas. Crença na metempsicose (transmigração das almas).
"O Obscuro". Tudo flui (panta rhei). O fogo é o arché. Doutrina dos opostos: o conflito é pai de todas as coisas. Influenciou Hegel, Nietzsche, Heidegger.
Antípoda de Heráclito. O Ser é uno, eterno, imóvel; o devir é ilusão. Inaugurou a metafísica como ciência do ser enquanto ser. Influenciou Platão, Plotino e a tradição metafísica ocidental inteira.
Junto com Leucipo, fundou o atomismo: o real é composto por átomos (indivisíveis) e vazio. Materialismo radical. Influenciou Epicuro e, milênios depois, a ciência moderna.
Quatro elementos (terra, água, ar, fogo) movidos por dois princípios: Amor e Discórdia. Teria se atirado no vulcão Etna para virar deus. Poeta-filósofo místico.
Não escreveu nada — conhecemos pelos diálogos de Platão e Xenofonte. Inaugurou a filosofia ética. Maiêutica: parir o conhecimento via perguntas. "Sei que nada sei". Condenado à morte por "corromper a juventude".
Discípulo de Sócrates, fundador da Academia. Teoria das Ideias (formas eternas como verdade real). Filosofia política em A República. Provavelmente o filósofo mais influente da história ocidental.
Discípulo de Platão por 20 anos, depois mestre de Alexandre, o Grande. Fundou o Liceu. Sistematizou lógica, ética, política, metafísica, biologia, retórica, poética. Definiu vocabulário filosófico até hoje (substância, acidente, potência, ato).
Fundou "O Jardim" em Atenas, comunidade aberta a mulheres e escravos. Ética: o prazer (entendido como ausência de dor, ataraxia) é o bem maior. Materialismo atomista. Combateu o medo da morte e dos deuses.
Fundador do estoicismo na Stoa Poikile (Pórtico Pintado) de Atenas. Ética: viver de acordo com a natureza e a razão (logos). Indiferença aos bens externos. Influenciou Sêneca, Epicteto, Marco Aurélio.
"O Cão". Filosofia como prática radical: vivia num barril, masturbava-se em público, comia o que encontrava. Rejeitava convenções, riqueza, fama. Quando Alexandre lhe ofereceu qualquer coisa, pediu apenas que saísse da frente do sol.
Filósofo, dramaturgo, conselheiro de Nero. Forçado ao suicídio pelo imperador. Suas Cartas a Lucílio são manual prático de estoicismo. Reflexões sobre brevidade da vida, ira, providência.
Imperador romano e filósofo estoico. Seus Pensamentos (escritos para si mesmo, em grego, durante campanhas militares) são um dos textos mais influentes sobre virtude e dever. "Filósofo no trono".
Reorganizou o platonismo. Hierarquia ontológica: Uno → Inteligência → Alma → Mundo. Sua Enéadas, compiladas por Porfírio, influenciou Agostinho, mística cristã, Renascimento, Hegel.
Pai da Igreja latina. Confissões (autobiografia espiritual) e A Cidade de Deus (filosofia da história). Doutrinas do pecado original, predestinação, tempo psicológico ("o que é o tempo? se ninguém me pergunta, eu sei…"). Síntese entre Cristianismo e Platão.
"Último romano e primeiro escolástico". Escreveu A Consolação da Filosofia esperando execução por traição. Traduziu Aristóteles para o latim, base da escolástica medieval.
Médico e filósofo persa. Sintetizou Aristóteles, Platão e teologia islâmica. Argumento ontológico precursor do de Anselmo. Influenciou Tomás de Aquino e toda a escolástica latina.
Filósofo de Córdoba. Comentador de Aristóteles tão influente que o Ocidente medieval o chamava simplesmente de "O Comentador". Dupla verdade (filosofia e religião como verdades distintas). Foi banido pelos almóadas.
Médico e filósofo judeu nascido em Córdoba. Sintetizou Aristóteles e tradição rabínica em Guia dos Perplexos. Influenciou Tomás de Aquino e Espinosa.
Pai da escolástica. Formulou o argumento ontológico para a existência de Deus: Deus é "aquele do qual não se pode pensar nada maior". "Fides quaerens intellectum" — a fé em busca de inteligência.
"Doutor Angélico". Síntese máxima entre Aristóteles e Cristianismo. As Cinco Vias para a existência de Deus. Distinção essência/existência. Summa Theologiae é catedral conceitual da escolástica.
Franciscano inglês. "Navalha de Ockham": entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem (não multipliques os entes além do necessário). Nominalismo: universais não existem fora da mente. Preparou a modernidade.
"Pai da filosofia moderna". Dúvida metódica leva ao "cogito ergo sum". Distinção res cogitans/res extensa (mente/corpo). Geometria analítica. Inaugurou o sujeito como ponto de partida.
Judeu sefardita expulso de sua comunidade em Amsterdam. Monismo radical: existe apenas uma substância — Deus ou Natureza (Deus sive Natura). Determinismo absoluto. Ética geometrizada. Influenciou Goethe, Hegel, Einstein.
Polímata: matemático (cálculo, paralelo a Newton), lógico, diplomata, filósofo. Mônadas: substâncias simples sem janelas. Princípio da razão suficiente. "Vivemos no melhor dos mundos possíveis" — caricaturado por Voltaire em Cândido.
"Pai do empirismo". Mente como tabula rasa: tudo vem da experiência. Fundamentou liberalismo político: contrato social, separação de poderes, direitos naturais. Influenciou Constituição americana.
Empirismo cético levado às últimas consequências. Crítica radical à causalidade (não vemos causas, vemos sucessões). Distinção é/dever. "Despertou Kant do sono dogmático".
"O homem nasce livre e por toda parte está acorrentado". Contrato social, vontade geral, soberania popular. Influenciou Revolução Francesa. Educação natural em Emílio. Confissões inaugurou autobiografia moderna.
Talvez o filósofo mais importante depois de Aristóteles. Três Críticas: razão pura (epistemologia), razão prática (ética), faculdade de julgar (estética). Imperativo categórico. Sintetizou racionalismo e empirismo. Inaugurou a filosofia transcendental.
Filosofia como sistema dialético: tese-antítese-síntese. O Espírito (Geist) se realiza na história. Influenciou Marx, existencialismo, hermenêutica. Fenomenologia do Espírito é monumento conceitual.
Crítico ferrenho de Hegel. O mundo é vontade cega que se manifesta como representação. A vida é sofrimento. Salvação possível pela arte (sobretudo música) e ascese. Primeira grande introdução de filosofia indiana no Ocidente.
Pai do existencialismo. Crítica feroz a Hegel: a verdade é subjetiva, o indivíduo concreto não cabe em sistemas. Três estágios da vida: estético, ético, religioso. Salto da fé.
Inverteu Hegel: a base material determina a consciência, não o contrário. Materialismo histórico: a história é luta de classes. Crítica da economia política em O Capital. Mudou o mundo no séc. XX.
"Deus está morto". Crítica radical à moral cristã, ressentimento, vontade de potência, eterno retorno, Übermensch. Estilo aforístico, mestre da prosa filosófica. Enlouqueceu em 1889. Influenciou Foucault, Deleuze, pós-modernismo.
Pai da filosofia analítica e da lógica moderna. Begriffsschrift (1879) inventou a lógica de predicados. Distinção sentido/referência. Logicismo: matemática reduzível à lógica.
Junto com Whitehead, escreveu Principia Mathematica. Atomismo lógico. Pacifista, ativista político, escritor popular. Nobel de Literatura 1950. Mestre de Wittgenstein.
Duas filosofias num só homem. Tractatus (1921): a linguagem é figuração lógica do mundo, "do que não se pode falar deve-se calar". Investigações Filosóficas (póstumo): linguagem como jogo, significado como uso. Possivelmente o filósofo mais original do séc. XX.
Pai da fenomenologia. Voltar "às coisas mesmas" via análise da consciência intencional. Epoché: suspensão das pressuposições naturalistas. Mestre de Heidegger.
"Ser e Tempo" (1927) é talvez o livro mais influente do séc. XX. Pergunta pelo sentido do Ser, esquecida desde Platão. Dasein, ser-para-a-morte, autenticidade. Comprometeu-se com o nazismo — controvérsia até hoje.
"A existência precede a essência". Liberdade radical: estamos "condenados a ser livres". Engajamento intelectual. Recusou o Nobel em 1964. Companheiro intelectual de Simone de Beauvoir.
"Não se nasce mulher, torna-se". Fundou o feminismo filosófico moderno com O Segundo Sexo (1949). Existencialista, ética da ambiguidade. Companheira intelectual de Sartre.
História das estruturas de poder e saber. Loucura, prisão, sexualidade, biopolítica. Análise dos dispositivos disciplinares. Influência massiva em humanidades e ciências sociais.
Inventou a desconstrução: leitura crítica que expõe binarismos hierárquicos em textos. Crítica do logocentrismo. Différance: sentido nunca está plenamente presente.
Líder da Escola de Frankfurt. Crítica da razão instrumental, da indústria cultural. Após Auschwitz, "escrever poesia é bárbaro" (declaração que ele depois nuançou). Dialética negativa.
Suicidou-se na fronteira franco-espanhola fugindo dos nazistas. Filosofia em fragmentos: aura, reprodutibilidade técnica, anjo da história. Junção entre marxismo, mística judaica e modernismo.
Crítico do positivismo lógico ("Two Dogmas of Empiricism", 1951). Naturalismo: filosofia é contínua com ciência. Indeterminação da tradução, holismo do significado. Maior filósofo americano do séc. XX.
Discípula de Heidegger e Jaspers. Fugiu do nazismo. Analisou o totalitarismo (nazismo e stalinismo) como fenômeno novo. "Banalidade do mal" (cobertura do julgamento de Eichmann). Refletiu a condição humana via vita activa.
Reabilitou a filosofia política normativa com Uma Teoria da Justiça (1971). Posição original, véu da ignorância, dois princípios da justiça. Quadro de referência para todo debate político-filosófico contemporâneo.
Herdeiro da Escola de Frankfurt. Teoria da ação comunicativa: a racionalidade se realiza no diálogo livre de coerção. Defensor do projeto da modernidade contra os pós-modernos. Esfera pública.
Abordagem das capacidades (com Amartya Sen): justiça avaliada pela capacidade real das pessoas. Especialista em filosofia antiga, ética contemporânea, direitos humanos, fragilidade do bem.
Utilitarista. Pioneiro da ética animal com Libertação Animal (1975). Ética prática aplicada: pobreza global, eutanásia, doação efetiva. Controverso e influente.
Filósofo francês contemporâneo. Hedonismo materialista. Ateu militante. Contra-história da filosofia em múltiplos volumes valorizando os "perdedores" do cânone (epicuristas, libertinos).
Lacaniano-hegeliano-marxista. Análise da ideologia via cultura pop, cinema, piadas. Crítico do capitalismo tardio. Performer cultural com presença massiva em mídia.
Filósofo da mente e da consciência. Funcionalismo, "modelo de múltiplos rascunhos" da consciência. Defensor do darwinismo e do ateísmo (Quatro Cavaleiros do Novo Ateísmo, com Hitchens, Harris, Dawkins).
Cunhou "o problema difícil da consciência": mesmo se explicarmos todos os processos cerebrais, por que existe experiência subjetiva? Zumbis filosóficos. Argumentos contra o fisicalismo.
Psiquiatra e revolucionário. Análise psicológica do colonialismo e do racismo. Influência fundadora dos estudos pós-coloniais. Morreu jovem, durante a guerra de independência da Argélia.
Filósofo da educação mais influente do séc. XX latino-americano. Pedagogia do Oprimido — educação como prática da liberdade, problematização, conscientização. Lido em todo o mundo.
Filósofa, antropóloga e ativista brasileira. Pioneira do feminismo negro latino-americano. Conceitos de "amefricanidade" e "pretuguês". Releitura de Lacan e Fanon a partir do Brasil negro.
Famílias de pensadores agrupadas por método, doutrina ou pergunta dominante.
O número é o princípio de tudo. Comunidade de Crotona (sul da Itália, séc. VI a.C.) com regras religiosas e dietéticas. Doutrina da metempsicose (transmigração das almas). Influenciou Platão.
Mestres itinerantes que cobravam para ensinar retórica e argumentação na Atenas do séc. V a.C. Relativismo: "o homem é a medida de todas as coisas" (Protágoras). Sócrates os atacava — e Platão os caricaturou.
Fundada por Platão (387 a.C.) nos jardins de Academos. Funcionou por mais de 900 anos até Justiniano fechá-la em 529 d.C. Foco: matemática, dialética, teoria das Ideias.
Fundado por Aristóteles (335 a.C.). "Peripatéticos" porque caminhavam enquanto discutiam. Empirismo, biologia, lógica, classificação sistemática do saber.
Fundado por Zenão de Cítio em Atenas (300 a.C.). Viver de acordo com a natureza e a razão. Apatheia: indiferença às paixões. Cosmopolitismo. Influenciou Roma, depois cristianismo, ressurgiu nos anos 2000.
Fundado por Epicuro (307 a.C.) em Atenas — "O Jardim". Materialismo atomista. Ética hedonista (prazer = ausência de dor). Combate ao medo da morte e dos deuses.
Fundado por Antístenes, dramatizado por Diógenes de Sínope. Vida segundo a natureza, contra convenções e propriedade. Parresia: dizer a verdade sem rodeios.
Pirro inaugura. Suspensão de juízo (epoché) leva à tranquilidade (ataraxia). Sexto Empírico sistematiza. Influenciou Montaigne, Hume.
Fundado por Plotino (séc. III). Hierarquia ontológica: Uno → Inteligência → Alma → Mundo. Forte componente místico. Influenciou Agostinho, mística cristã, Renascimento.
Sistema mais influente da filosofia hindu. Comentário sistemático aos Upanishads. Três correntes principais: Advaita (não-dualismo, Shankara), Vishishtadvaita (não-dualismo qualificado, Ramanuja), Dvaita (dualismo, Madhva).
Fundado por Nāgārjuna (séc. II). Doutrina da vacuidade (śūnyatā): nenhum fenômeno tem essência própria. Caminho do meio entre nihilismo e essencialismo. Base de toda filosofia budista mahayana.
Fundado por Confúcio (séc. V a.C.). Ética social baseada em ren (humanidade), li (ritual), xiao (piedade filial). Definiu cultura chinesa por dois milênios.
Fundado por Lao Tsé (?). Harmonia com o tao (caminho), wu wei (não-ação), simplicidade, espontaneidade. Contraste deliberado com confucionismo.
Filosofia das universidades medievais (séc. XI–XV). Síntese entre Aristóteles e Cristianismo. Método de disputatio. Distinção entre essência e existência, debate sobre universais.
Conhecimento via razão. Inatismo. Mundo organizado por ordem racional matemática. Sistemas dedutivos amplos.
Conhecimento via experiência sensorial. Mente como tabula rasa (Locke). Crítica a ideias inatas. Método indutivo.
Movimento europeu do séc. XVIII pela razão, ciência, tolerância, liberdade política. Crítica do Antigo Regime e da religião institucional. Inspirou Revolução Americana e Francesa.
Após Kant: Fichte, Schelling, Hegel. O Espírito (consciência, razão) é o fundamento da realidade. Sistema dialético. Filosofia da história.
Tradição americana. Significado e verdade têm a ver com efeitos práticos. Crítica a metafísicas abstratas. Foco em ação, experiência, comunidade científica.
Rigor lógico, clareza, análise da linguagem. Tradição majoritária no mundo anglófono. Foco em filosofia da linguagem, mente, ciência, lógica.
Análise da estrutura da experiência consciente. "Voltar às coisas mesmas". Tradição majoritária na Europa continental.
"A existência precede a essência" (Sartre). Liberdade radical, angústia, autenticidade, escolha. Antecedentes em Kierkegaard e Nietzsche.
Teoria crítica marxista heterodoxa, com psicanálise e estética. Crítica da indústria cultural, razão instrumental, sociedade unidimensional. Fugiram do nazismo para os EUA, voltaram depois.
Estruturas linguísticas, simbólicas e discursivas constituem o sujeito. Pós-estruturalismo (Foucault, Derrida, Deleuze) radicaliza, dissolve sujeito e estrutura.
Desenvolvida por Amartya Sen e Martha Nussbaum. Justiça avaliada pela capacidade real das pessoas de fazer e ser o que valorizam. Lista de capacidades centrais.
Crítica da colonização epistêmica. Saberes do Sul global. Pluralismo cultural radical. Fanon, Mignolo, Mbembe, Dussel.
Cada pergunta gera uma disciplina. Aqui estão as oito principais.
Estudo dos princípios primeiros do real. O que é o ser? Existem essências? Há causalidade? Há livre-arbítrio? Aristóteles a chamou de "filosofia primeira".Ex.: Aristóteles · Metafísica
Estudo do conhecimento — sua natureza, origem, limites. O que é uma crença justificada? Como sabemos que sabemos? Cético, empirista, racionalista.Ex.: Hume · Investigação sobre o Entendimento Humano
Estudo das formas válidas de inferência. Aristóteles inventou a silogística; Frege e Russell modernizaram com a lógica de predicados. Hoje, lógica modal, intuicionista, paraconsistente.Ex.: Aristóteles · Órganon
Estudo do bem e do certo. Três grandes correntes: virtude (Aristóteles), dever (Kant), consequências (Bentham, Mill, Singer). Aplicada a casos: bioética, ética animal, ambiental.Ex.: Aristóteles · Ética a Nicômaco
Justiça, soberania, liberdade, igualdade, democracia. Platão (A República), Hobbes (Leviatã), Locke, Rousseau, Marx, Rawls, Nozick.Ex.: Rawls · Uma Teoria da Justiça
Filosofia da arte e da beleza. Platão suspeitava da arte (mimese da mimese); Aristóteles defendeu (catarse). Kant a fundou modernamente. Adorno, Benjamin, Heidegger, Goodman.Ex.: Kant · Crítica do Juízo
Natureza da consciência, da intencionalidade, da relação mente-corpo. Dualismo, fisicalismo, funcionalismo. Hoje em diálogo com neurociência e IA.Ex.: Chalmers · The Conscious Mind
Significado, referência, atos de fala. Frege, Russell, Wittgenstein, Austin, Searle, Kripke. Tornou-se central no séc. XX (giro linguístico).Ex.: Wittgenstein · Investigações Filosóficas
Cinquenta livros sem os quais o pensamento ocidental seria diferente.
| Obra | Autor | Ano | Tradição |
|---|---|---|---|
| Rigveda | Tradição indiana | c. 1500 a.C. | Védica |
| Brihadaranyaka Upanishad | Yajnavalkya (atrib.) | c. 800 a.C. | Védica |
| Avesta | Zaratustra | c. 1200 a.C. | Persa |
| Tao Te Ching | Lao Tsé (atrib.) | c. 500 a.C. | Chinesa |
| Analectos | Confúcio | c. 475 a.C. | Chinesa |
| Bhagavad Gita | Vyasa (atrib.) | c. 200 a.C. | Indiana |
| A República | Platão | c. 380 a.C. | Clássica |
| Banquete | Platão | c. 385 a.C. | Clássica |
| Fédon | Platão | c. 380 a.C. | Clássica |
| Timeu | Platão | c. 360 a.C. | Clássica |
| Metafísica | Aristóteles | c. 350 a.C. | Clássica |
| Ética a Nicômaco | Aristóteles | c. 340 a.C. | Clássica |
| Política | Aristóteles | c. 335 a.C. | Clássica |
| Órganon (lógica) | Aristóteles | c. 350 a.C. | Clássica |
| Carta a Meneceu | Epicuro | c. 305 a.C. | Helenística |
| Cartas a Lucílio | Sêneca | c. 60 d.C. | Romana |
| Meditações | Marco Aurélio | c. 170 d.C. | Romana |
| Enéadas | Plotino | c. 270 d.C. | Neoplatonismo |
| Confissões | Agostinho | 400 d.C. | Patrística |
| A Cidade de Deus | Agostinho | 426 d.C. | Patrística |
| A Consolação da Filosofia | Boécio | 524 d.C. | Patrística |
| Proslógio | Anselmo | 1078 | Escolástica |
| Guia dos Perplexos | Maimônides | c. 1190 | Judaica |
| Suma Teológica | Tomás de Aquino | 1265–1274 | Escolástica |
| Discurso do Método | Descartes | 1637 | Moderna |
| Meditações Metafísicas | Descartes | 1641 | Moderna |
| Leviatã | Hobbes | 1651 | Moderna |
| Ética | Espinosa | 1677 | Moderna |
| Ensaio sobre o Entendimento Humano | Locke | 1689 | Empirismo |
| Monadologia | Leibniz | 1714 | Racionalismo |
| Tratado da Natureza Humana | Hume | 1739 | Empirismo |
| Do Contrato Social | Rousseau | 1762 | Iluminismo |
| Crítica da Razão Pura | Kant | 1781 | Idealismo Crítico |
| Crítica da Razão Prática | Kant | 1788 | Idealismo Crítico |
| Fenomenologia do Espírito | Hegel | 1807 | Idealismo |
| O Mundo como Vontade e Representação | Schopenhauer | 1818 | Pessimismo |
| Temor e Tremor | Kierkegaard | 1843 | Existencialismo |
| Manifesto Comunista | Marx & Engels | 1848 | Materialismo |
| O Capital (vol. I) | Marx | 1867 | Materialismo |
| Assim Falou Zaratustra | Nietzsche | 1883–1885 | Niilismo |
| Genealogia da Moral | Nietzsche | 1887 | Niilismo |
| Tractatus Logico-Philosophicus | Wittgenstein | 1921 | Analítica |
| Ser e Tempo | Heidegger | 1927 | Fenomenologia |
| Investigações Filosóficas | Wittgenstein | 1953 (póst.) | Analítica |
| O Ser e o Nada | Sartre | 1943 | Existencialismo |
| O Segundo Sexo | Beauvoir | 1949 | Feminismo |
| Origens do Totalitarismo | Arendt | 1951 | Política |
| Vigiar e Punir | Foucault | 1975 | Pós-estruturalismo |
| Uma Teoria da Justiça | Rawls | 1971 | Política |
| Pedagogia do Oprimido | Paulo Freire | 1968 | Brasileira |
O vocabulário sem o qual não dá pra conversar de filosofia.
do grego ἀρχή — princípio, origem
O princípio primeiro de todas as coisas. Tales disse água, Anaximandro o ápeiron, Heráclito fogo, Pitágoras número. A pergunta inaugural da filosofia ocidental.
λόγος — palavra, razão, discurso
Termo polissêmico. Em Heráclito: ordem racional do cosmos. Em Aristóteles: discurso lógico. No Evangelho de João: o Verbo divino.
τὸ ὄν — o que é
Conceito mais amplo da metafísica. "Por que existe algo em vez de nada?" (Leibniz). Heidegger acusa a tradição de ter esquecido a pergunta pelo sentido do Ser.
ἰδέα · εἶδος
Em Platão: realidade eterna, imutável, da qual o mundo sensível é cópia. Em Aristóteles: forma imanente à matéria. Conceito-chave do platonismo.
οὐσία — essência
Em Aristóteles, "aquilo que existe por si". Em Espinosa, há apenas uma — Deus ou Natureza. Tema central da metafísica até Kant.
εὐδαιμονία — vida bem-vivida
Para Aristóteles, o bem maior: vida plena de virtude e atividade racional. Não é prazer momentâneo, mas florescimento ao longo da vida inteira.
ἀταραξία — imperturbabilidade
Estado de calma da alma, livre de perturbações. Objetivo do epicurismo (via prazer comedido) e do ceticismo (via suspensão do juízo).
ἀπάθεια — sem paixões
Ideal estoico de indiferença às paixões. Não é insensibilidade, mas controle racional sobre os afetos. Equilíbrio em meio a fortuna ou desgraça.
आत्मन् — eu, alma
Conceito central dos Upanishads: o Eu profundo, idêntico ao Brahman (absoluto). "Tat tvam asi" — tu és isso. Negado pelo budismo (anatta).
ब्रह्मन् — absoluto
Realidade última, infinita, impessoal. Matriz de tudo. A doutrina central do Vedanta é a unidade de ātman e brahman.
道 — caminho, via
Princípio último da realidade no taoismo. Inefável: "o tao que pode ser dito não é o tao". Fluxo natural com o qual o sábio se harmoniza pela wu wei.
仁 — humanidade
Virtude central do confucionismo: humanidade plena, benevolência, compaixão pelos outros. Realizada via li (ritual) e xiao (piedade filial).
cogito ergo sum
"Penso, logo existo" (Descartes). A primeira certeza após a dúvida radical. Inaugurou o sujeito como ponto de partida da filosofia moderna.
διαλεκτική — diálogo
Em Sócrates/Platão: arte do diálogo que conduz à verdade. Em Hegel: movimento triádico tese-antítese-síntese. Em Marx: dialética materialista da história.
a realidade é mental
Posição metafísica: a realidade última é constituída pela mente ou pelo Espírito. Berkeley (subjetivo), Kant (transcendental), Hegel (absoluto).
a realidade é matéria
Antagônica do idealismo. Tudo o que existe é matéria em movimento. Demócrito, Epicuro, Lucrécio, Hobbes, La Mettrie, Marx, neuroreducionismo.
φαινόμενον — o que aparece
O que se manifesta à consciência. Kant distingue do nóumeno (coisa-em-si). Husserl funda a fenomenologia: estudo dos fenômenos enquanto tais.
"ser-aí" (Heidegger)
O modo de ser específico do ser humano: aquele para quem o seu ser está em questão. Estar lançado no mundo, ser-para-a-morte, autenticidade.
de nihil — nada
Tese de que valores tradicionais (Deus, verdade, bem) carecem de fundamento. Nietzsche é seu profeta e seu crítico: "Deus está morto".
πρᾶξις — ação
Em Aristóteles, ação humana orientada por escolha. Em Marx, atividade transformadora histórica. "Os filósofos só interpretaram o mundo; trata-se de transformá-lo".
ἀγαθόν · δικαιοσύνη
Conceitos centrais da ética e da política. Para Platão, o Bem é a Ideia mais alta. Aristóteles e Aquino derivaram dele a ética da virtude. Rawls modernizou a justiça via contrato.
ἐλευθερία · libertas
Em política: ausência de coerção (negativa) ou autodeterminação (positiva — Berlin). Em metafísica: livre-arbítrio versus determinismo. Sartre: condenados a sermos livres.
ἀπορία — sem caminho
Impasse argumentativo, beco sem saída lógico. Sócrates conduz seus interlocutores a aporias para mostrar que sabem menos do que pensam — pré-condição da maiêutica.
ἐποχή — suspensão
No ceticismo: suspender o juízo sobre o que não é evidente, para alcançar tranquilidade. Em Husserl: suspender a atitude natural para descrever a consciência pura.