Antes de Sócrates, havia Themistocleia. Antes de Platão, Aspásia. Antes de Diógenes, Hipárquia. De Yajnavalkya a Mahadevi, de Rabi'a a Hildegarda, de Hypatia a Mira. Três mil anos de pensamento humano através das vozes que o cânone preferiu esquecer.
"Não somos as primeiras. Somos as últimas a falar de quem veio antes."
Quando Pitágoras recebeu o nome de "pai da filosofia", Diógenes Laércio já registrava — quase em sussurro — que a maior parte das doutrinas morais de Pitágoras vinham de uma mulher: Themistocleia, sacerdotisa de Delfos. Quando Sócrates é apresentado como "fundador da filosofia ética", Platão coloca em seu Fedro uma confissão que a tradição preferiu esquecer: foi uma mulher, Diotima de Mantinea, quem o ensinou sobre o amor. Quando os manuais começam a história da filosofia em Mileto, omitem que ali mesmo, em Mileto, viveu Aspásia — que ensinou retórica a Sócrates e a Péricles.
Este atlas trata da omissão como um problema filosófico. Por que tantas mulheres pensadoras foram apagadas? O cânone foi sendo construído por homens que escolhiam, comentavam e transmitiam as obras dos seus pares. Diógenes Laércio dedicou um único verbete a uma única mulher (Hipárquia, a cínica) entre 82 filósofos. Os Vedas mencionam 27 mulheres como autoras de hinos rituais — nenhum manual moderno de filosofia indiana as discute. Hipátia foi assassinada por uma multidão cristã em 415 d.C., e a filosofia ocidental demorou 1.500 anos para ter outra mulher comparável a ela em proeminência pública.
A história das mulheres na filosofia não é a história de pioneirismos isolados. É a história de uma tradição contínua que precisou ser sistematicamente desenterrada. — Mary Ellen Waithe, A History of Women Philosophers
O atlas tenta fazer justiça a essa continuidade. Em vez de começar com Mary Wollstonecraft (1759), como faz a maioria dos cursos de filosofia feminista, começa com Yajnavalkya — que aparece dialogando, no Brihadaranyaka Upanishad, com sua discípula Maitreyi e enfrentando o desafio público da sábia Gargi Vachaknavi. Em vez de tratar Hildegarda de Bingen como mística menor, reconhece-a como filósofa natural e teóloga. Em vez de pular do feminismo para o feminismo, demora-se nas yoginis do tantra, nas damas da corte de Heian, nas sufis ascetas de Basra, nas tertöns tibetanas — porque foi nelas, primeiro, que a história aconteceu.
Setenta e oito mulheres organizadas em dez eras, oito tradições, quarenta obras-marco, sete temas recorrentes que atravessam culturas. Da Era Védica (1500 a.C.) à filosofia contemporânea. De brahmavadinis hindus a sacerdotisas gregas, de teólogas medievais a místicas sufis, de tertöns tibetanas a filósofas analíticas, de poetisas bhakti a acadêmicas latinoamericanas. Uma travessia que não é apêndice da história da filosofia — é a outra metade da mesma história.
Onde a filosofia floresceu, sempre houve mulheres pensando ao lado, debaixo ou acima dos homens.
As brahmavadinis dos Upanishads, as autoras dos hinos do Rigveda, as bhakti yoginis medievais, as gurus modernas. Linhagem feminina contínua de 3.500 anos.
Sacerdotisas, esposas-discípulas, hetairas filósofas, neoplatônicas. Várias ensinaram homens que ficaram famosos. Quase todas foram apagadas pelos doxógrafos.
As mulheres sufis fundaram a doutrina do amor divino que se tornou central em Rumi e Ibn Arabi. Rabi'a transformou o sufismo em mística do amor.
Místicas medievais, místicas renascentistas, teólogas modernas. Algumas escreveram em seus mosteiros enquanto homens disputavam universidades.
Therigatha (poemas das primeiras monjas), as dakinis tibetanas, as tertöns que revelaram tesouros sagrados, as professoras zen do Japão.
Filósofas confucianas que ensinaram virtudes femininas, alquimistas taoístas, monjas zen-chan, poetisas-pensadoras Tang e Song.
Mulheres que sintetizaram tradições orientais e ocidentais em sistemas filosóficos novos: Teosofia, antroposofia, espiritualidade comparada.
As primeiras mulheres a entrarem nas universidades, fundadoras de feminismo, ética das virtudes, fenomenologia, filosofia analítica e descolonial.
Cada era da filosofia teve mulheres centrais — mesmo quando a história só registrou as suas pegadas.
O Rigveda, o mais antigo texto filosófico-religioso do mundo, atribui hinos a 27 rishikas — sábias videntes. Ghosha, Apala e Lopamudra estão entre as autoras nomeadas. Os Upanishads inauguram o questionamento metafísico — e fazem-no através de mulheres como Gargi Vachaknavi (que desafia Yajnavalkya em debate público) e Maitreyi (que recusa a riqueza pela imortalidade do conhecimento).
Themistocleia ensina Pitágoras em Delfos. Sappho de Lesbos inaugura a poesia lírica filosófica. Theano, esposa e provavelmente sucessora de Pitágoras, lidera a escola após sua morte. Aspásia de Mileto chega a Atenas, abre uma escola de retórica, ensina Péricles e Sócrates. As pitagóricas Aesara, Phintys e Perictione escrevem tratados sobre ética, harmonia e estrutura familiar.
Diotima de Mantinea aparece em Platão como mestra de Sócrates sobre o amor — a única mulher a quem Sócrates atribui ensinamento direto. Arete de Cirene sucede o pai Aristipo na liderança da escola cirenaica. Hipárquia abandona riqueza para se casar com Crates, o cínico, e viver filosofando nas ruas. Leontion, hetaira-filósofa, escreve refutação a Teofrasto. As pitagóricas tardias publicam tratados.
Hipátia de Alexandria torna-se a maior matemática-filósofa de seu tempo, dirige a escola neoplatônica, é assassinada por uma multidão cristã em 415 — fim simbólico da Antiguidade pagã. Sosipatra de Éfeso, vidente neoplatônica, é descrita como tendo conhecimentos sobrenaturais. Asclepigenia, filha de Plutarco de Atenas, ensina teurgia (incluindo a Proclo, sucessor da Academia).
Hildegarda de Bingen escreve Scivias (visões teológicas), funda dois mosteiros, compõe música sacra, pratica medicina. Marguerite Porete escreve O Espelho das Almas Simples e é queimada na fogueira por ele em 1310. Juliana de Norwich tem visões sobre Deus como mãe. Mechthild de Magdeburgo descreve a alma como esposa de Cristo. Catarina de Siena aconselha papas. Rabi'a no Islã, Lalleshwari na Caxemira.
Yeshe Tsogyel torna-se a "Mãe do Vajrayana" no Tibete — consorte e discípula igual de Padmasambhava. Machig Labdrön funda a linhagem Chöd. Andal é a única mulher entre os 12 Alvars do sul da Índia. Akka Mahadevi caminha nua por devoção a Shiva. Lalleshwari faz o mesmo na Caxemira, sintetizando shaivismo e sufismo. Mirabai escreve poesias a Krishna que ainda hoje se cantam.
Christine de Pizan abre, em 1405, a Querela das Mulheres com O Livro da Cidade das Damas — primeira defesa filosófica sistemática da igualdade intelectual feminina. Murasaki Shikibu (Japão, séc. XI) escreve o primeiro romance psicológico do mundo. Marie de Gournay edita Montaigne. Anne Conway, no séc. XVII, escreve metafísica que influencia Leibniz. Sor Juana Inés da Cruz no México.
Mary Astell propõe academias para mulheres em 1694. Mary Wollstonecraft publica em 1792 a Vindicação dos Direitos da Mulher — pedra fundadora do feminismo filosófico. Margaret Cavendish escreve metafísica. Émilie du Châtelet traduz Newton. Harriet Taylor Mill colabora (e provavelmente excede) seu marido John Stuart. Sojourner Truth, Sarah Margaret Fuller, Harriet Martineau ampliam a discussão para raça e classe.
Helena Blavatsky funda a Sociedade Teosófica em 1875 — síntese entre filosofia oriental, ciência ocidental e ocultismo. Annie Besant herda a liderança e expande para a Índia. Alice Bailey desenvolve teosofia esotérica. Helena Roerich escreve o Agni Yoga. Hilma af Klint pinta visões teosóficas (esquecida até 1986). Elas trouxeram para o Ocidente moderno o vocabulário de karma, reencarnação, chakras.
Edith Stein na fenomenologia (mártir em Auschwitz). Hannah Arendt na filosofia política. Simone de Beauvoir no existencialismo. Simone Weil na mística da atenção. Iris Murdoch e o "quarteto de Oxford" (com Anscombe, Foot, Midgley) revolucionam a ética. Susanne Langer na filosofia da mente. Martha Nussbaum nas capacidades. Judith Butler na teoria queer. Angela Davis e bell hooks no feminismo negro. Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro no feminismo afro-brasileiro.
Em ordem cronológica. Cada nome carrega uma genealogia silenciada.
Uma das 27 mulheres às quais o Rigveda atribui hinos. Ghosha é mencionada nominalmente como autora de hinos do livro X. Sofria de doença de pele e teria sido curada pelos Ashwins (deuses gêmeos da medicina) — seus hinos são poéticos pedidos de cura.
Esposa do sábio Agastya. O Rigveda preserva um diálogo entre eles (1.179) onde Lopamudra critica a abstinência sexual do marido em nome do dever de procriação — texto raríssimo, dialógico, filosoficamente sofisticado para 3.000 anos atrás.
Autora do hino Rigveda 8.91. Mulher rejeitada pelo marido por causa de doença de pele, encontrou Indra, ofereceu-lhe Soma, e foi curada. Sua história foi lida como alegoria da alma feminina sofrida que conquista o divino pelo seu próprio esforço.
A maior filósofa-debatedora do mundo upanishádico. No Brihadaranyaka Upanishad 3.6 e 3.8, ela desafia o sábio Yajnavalkya em debate público na corte do rei Janaka. Pergunta sucessivamente em que está tecido o universo: água, ar, espaço… até forçar Yajnavalkya a recorrer ao Imperecível (akṣara). Suas perguntas inauguram a tradição da metafísica indiana de "neti neti" (não isso, não isso).
Esposa-discípula de Yajnavalkya. Quando ele decide se retirar para a vida ascética e dividir bens entre as duas esposas, Maitreyi recusa — pergunta se a riqueza pode dar imortalidade. Yajnavalkya responde que não. Ela então pede que ele lhe ensine apenas o que conduz à imortalidade. Esse diálogo (Brihadaranyaka 2.4 e 4.5) é um dos textos-chave da metafísica do ātman.
Chamada por Platão de "a Décima Musa". Sua poesia lírica é a primeira expressão sofisticada na tradição ocidental da subjetividade emocional, da philia, do desejo, da consciência da finitude. Filosoficamente, antecipa Diotima: o amor (eros) como caminho de conhecimento. Apenas fragmentos sobreviveram.
A Pítia que ensinou Pitágoras suas doutrinas morais — segundo Aristóxeno (séc. IV a.C.), citado por Diógenes Laércio. Porfírio chama-a de Aristocleia. Foi a fonte da ética pitagórica. Pode-se considerá-la, com fundamento, a primeira mestra documentada do mais influente filósofo grego antes de Sócrates.
Esposa (segundo a maioria das fontes) ou discípula de Pitágoras. Teria liderado a escola pitagórica após sua morte, junto com as filhas Damo e Mia. Atribuem-lhe tratados (provavelmente espúrios mas reverenciados) sobre a virtude feminina, o número, a harmonia da alma.
A mulher mais influente da Atenas do séc. V a.C. Companheira de Péricles, professora de retórica de Sócrates (segundo o próprio Platão no Menexeno). Fundou uma escola que era também salão filosófico. Quatro filósofos socráticos escreveram diálogos ostentando seu nome (Antístenes, Platão, Ésquines, Xenofonte). Armand D'Angour argumenta que Diotima é seu disfarce.
No Banquete de Platão, Sócrates atribui a ela toda sua compreensão sobre o amor. Diotima ensina a "escada de Eros" — do desejo por um corpo belo, à beleza dos corpos, à beleza das almas, das leis, das ciências, até a Beleza-em-si. É a única mulher a quem Sócrates atribui ensinamento direto. Há debate se foi histórica ou alegoria — Aspásia disfarçada, segundo alguns.
Filha do filósofo Aristipo, fundador da escola hedonista cirenaica. Segundo Diógenes Laércio, ela sucedeu o pai na liderança da escola — provavelmente a primeira mulher a chefiar oficialmente uma escola filosófica grega. Ensinou seu filho Aristipo, o Jovem, que continuou a tradição. Atribui-se-lhe tratados sobre filosofia natural e ética.
Única mulher entre os 82 filósofos do Vidas e Doutrinas de Diógenes Laércio. Filha de família rica da Trácia, abandonou a riqueza para se casar com o cínico Crates de Tebas. Viveu nas ruas de Atenas como ele, vestindo capa e usando o cajado. Em um simpósio, refutou Teodoro, o Ateu, com um silogismo: "O que não é errado fazer a si mesmo, não é errado fazer a outro" — golpe filosófico para defender seu direito a estudar em vez de tecer.
Hetaira-filósofa atheniense, discípula do epicurismo. Cícero a menciona com admiração: ousou escrever uma refutação a Teofrasto, sucessor de Aristóteles. Plutarco também a cita. O fato de uma mulher ter escrito uma refutação técnica contra o líder do Liceu mostra que mulheres acessavam, sim, o discurso filosófico de alto nível.
No Mahabharata, livro Shanti Parva (308), Sulabha aparece como sannyasin (renunciante) errante que entra em debate filosófico com o rei Janaka — debate que ela vence. Defende que a alma não tem gênero e que a libertação é igualmente acessível a homens e mulheres. Texto pioneiro da metafísica do gênero.
Filha do matemático Theon, dirigiu a escola neoplatônica de Alexandria. Comentou Apolônio de Perga, Diofanto, Ptolomeu. Foi a maior matemática-filósofa de seu tempo. Em 415 d.C., uma multidão cristã (incitada pelo bispo Cirilo) a sequestrou, levou a uma igreja, despiu-a, esfolou-a com cacos de telha e queimou seus restos. Sua morte simboliza o fim da Antiguidade pagã.
Filósofa-vidente neoplatônica de Éfeso. Segundo o biógrafo Eunapio, foi educada por dois sábios caldeus que lhe transmitiram sabedoria sobrenatural. Casou-se com o filósofo Eustathius e teve filhos filósofos. Tinha fama de prever eventos à distância. Representa a fusão entre teurgia e filosofia que marcou o neoplatonismo tardio.
Filha de Plutarco de Atenas, líder da Academia. Ensinou teurgia (a arte ritual de invocar o divino) a Proclo, que viria a ser um dos maiores filósofos neoplatônicos. Asclepigenia é o elo entre Plutarco e Proclo — sem ela, a tradição teúrgica que Proclo sistematizou se teria perdido. Mais um caso de mulher como elo invisível entre homens famosos.
Tia e madrasta do Buda Gautama. Convenceu o Buda — após três pedidos recusados e a intercessão de Ananda — a fundar a primeira ordem monástica feminina (Bhikkhuni Sangha). Sem ela, o budismo seria religião apenas masculina. As Therigatha ("canções das anciãs") incluem versos de mulheres iluminadas que ela liderou.
Uma das duas principais discípulas femininas do Buda (junto com Uppalavanna). Ex-rainha do rei Bimbisara, célebre por sua beleza. Convertida pelo Buda, atingiu a iluminação rapidamente e tornou-se a "principal em sabedoria" entre as monjas. Seus versos no Therigatha são considerados de profundidade filosófica equivalente aos dos monges-arhats.
Nascida escrava em Basra, libertada após "luz miraculosa" sobre sua cabeça. Transformou o sufismo: antes dela, o asceticismo era praticado por medo do inferno e desejo do paraíso. Rabi'a recusou ambos. Ensinou o "amor puro" (mahabba) a Deus — amar Deus por Deus, não por recompensa. Doutrina que se tornou central em todo o misticismo sufi posterior (Ibn Arabi, Rumi). Provavelmente a mulher mais influente da história do islã.
Mestra sufi de quem o grande Bayazid Bistami (séc. IX) disse: "Em toda minha vida, encontrei um único homem verdadeiro e uma única mulher verdadeira: aquela mulher era Fátima de Nishapur." Ensinou ascese rigorosa e o caminho do amor a Deus a uma geração de sufis homens — algo registrado por At-Tirmidhi e outros.
"A Mãe do Vajrayana". Consorte e discípula igual de Padmasambhava (segundo Buda). Atingiu iluminação plena e tornou-se mestra por direito próprio. Compilou a maioria dos termas (textos-tesouro) que Padmasambhava ocultou para serem revelados por gerações futuras. Tanto a escola Nyingma quanto Karma Kagyu a reconhecem como Buda feminina.
Primeira historiadora chinesa. Completou a História da Dinastia Han (Han Shu) iniciada por seu irmão Ban Gu. Escreveu Lições para Mulheres (Nüjie) — tratado sobre a virtude feminina lido como manual confuciano por mulheres chinesas durante 1.800 anos. Foi também conselheira da imperatriz Deng. Lição ambígua: definiu padrão de virtude feminina restritivo, mas demonstrou capacidade intelectual feminina ao mais alto nível.
Uma dos Sete Imortais da escola Quanzhen (Verdade Completa) do taoismo. Escreveu poemas e tratados sobre alquimia interna (neidan) — incluindo um corpus específico para a alquimia feminina (nü dan), com técnicas adaptadas à fisiologia feminina. Antes dela, a alquimia taoísta era tratada como universal-masculina. Ela cria, pela primeira vez, espiritualidade somática diferenciada por gênero.
A única mulher entre os 12 Alvars (santos do sul da Índia devotados a Vishnu). Escreveu o Tiruppavai (30 hinos) e o Nachiar Tirumoli, hoje recitados todas as manhãs em templos vaishnavas. Recusou casar com qualquer humano, declarou-se esposa de Vishnu, e segundo a tradição foi absorvida pelo deus em forma humana no templo de Srirangam.
Fundadora da linhagem Chöd (literalmente "cortar") — única tradição budista tibetana criada e revelada por uma mulher. A prática Chöd usa a visualização da própria oferta do corpo aos demônios para cortar o apego ao ego. Padmasambhava a profetizou como reencarnação de Yeshe Tsogyel. Estima-se que 1.263 de seus discípulos atingiram a iluminação — número possivelmente superior ao do próprio Buda.
Poeta-santa kannada do movimento Lingayat de Karnataka. Aos 12 anos, foi forçada a casar com um rei. Aos 16, abandonou marido, palácio e roupas — caminhou nua, coberta apenas pelos cabelos, em devoção a Shiva (que ela chamava Chennamallikarjuna, "Senhor branco como jasmim"). Compôs cerca de 350 vachanas (poemas devocionais em prosa) — peças filosóficas curtas sobre o êxtase místico, a rejeição do social, a unidade última.
Mística kashmiri, também caminhou nua. Sintetizou shaivismo de Caxemira com sufismo persa — a ponto de hindus e muçulmanos a reverenciarem igualmente. Seus vakhs (versos de quatro linhas em kashmiri) são as primeiras composições poéticas conhecidas da língua. Filosoficamente: monismo radical, rejeição de rituais externos, ênfase na experiência direta. "Não importa em qual direção te volte: lá está Shiva."
Princesa rajput nascida em Mewar. Casou-se contrariada — declarou-se esposa eterna de Krishna. Resistiu a tentativas de envenenamento da família real, abandonou a corte, perambulou cantando bhajans (cânticos devocionais) em todo o norte da Índia. Suas mais de 1.300 composições atribuídas continuam sendo cantadas — provavelmente a poetisa religiosa mais cantada na Índia atual.
"Sibila do Reno". Abadessa de dois mosteiros que ela própria fundou. Polímata: teóloga (Scivias), compositora (cuja obra musical sobrevive completa), médica e botânica (Physica e Causae et Curae), filósofa natural. Visões místicas que ela registra com precisão fenomenológica. Doutora da Igreja desde 2012. Provavelmente a primeira mulher europeia com obra filosófica sistemática sobrevivente.
Beguina (movimento religioso feminino leigo) que escreveu A Luz Fluente da Divindade em médio-baixo alemão — primeira grande obra mística vernacular da Europa. A alma como esposa do Deus-amante, em linguagem erótico-mística que escandalizou e inspirou. Influenciou Eckhart e a mística renana.
Escreveu O Espelho das Almas Simples — manual místico que descreve sete estágios pelos quais a alma se aniquila em Deus, tornando-se ela própria Deus. Recusou-se a retratar-se ou modificar o livro. Foi queimada viva em Paris em 1310 — uma das primeiras vítimas da Inquisição francesa. O livro circulou anônimo por 600 anos antes de ser atribuído a ela em 1946.
Anacoreta enclausurada na igreja de St. Julian em Norwich. Após uma quase-morte aos 30 anos, teve 16 visões ("revelações") sobre o amor de Deus. Escreveu Revelações do Amor Divino — primeiro livro escrito em inglês por uma mulher conhecida. Defende uma teologia maternal: Deus é também mãe, Cristo é mãe da alma. "Tudo será bem, tudo será bem, e toda manner of thing será bem."
Mística e política. Aconselhou (e ralhou com) o papa Gregório XI por escrito até convencê-lo a deixar Avignon e voltar a Roma — feito imenso para uma mulher de 29 anos. Doutora da Igreja desde 1970. Suas Cartas e o Diálogo da Divina Providência combinam misticismo e teologia política sofisticada.
Italiana criada na corte francesa de Carlos V. Viúva aos 25 anos, sustentou três filhos pela escrita — primeira mulher europeia a viver de sua pena. Em 1405, publicou O Livro da Cidade das Damas — primeira defesa filosófica sistemática da igualdade intelectual feminina. Construiu uma "cidade" alegórica habitada por todas as grandes mulheres da história. Deu início à Querela das Mulheres, debate europeu de 300 anos.
Dama da corte da imperatriz Shoshi. Escreveu O Conto de Genji — frequentemente chamado de o primeiro romance psicológico do mundo. 54 capítulos, mais de 400 personagens, exploração filosófica do mono no aware (a melancolia das coisas), do tempo, da impermanência, do desejo. Um dos textos fundadores da estética e da ética japonesas.
Dama da corte rival da de Murasaki. Escreveu O Livro do Travesseiro (Makura no Sōshi) — gênero literário inteiramente novo: zuihitsu, "seguir o pincel". Listas, observações, fragmentos filosóficos, estética da fugacidade. Seu olhar agudo sobre o belo e o ridículo definiu o gosto japonês. Filosoficamente: uma fenomenologia do gosto e da percepção.
Reformou a ordem carmelita criando os Carmelitas Descalços. Escreveu O Livro da Vida (autobiografia mística) e O Castelo Interior (obra-prima da mística sistemática: a alma como castelo de sete moradas concêntricas). Doutora da Igreja desde 1970 — primeira mulher a receber o título. Defensora vigorosa do direito feminino à contemplação avançada.
Freira e poetisa mexicana. Aos 5 anos lia em latim. Aos 15 era a maior mente do vice-reinado. Entrou para o convento porque era o único modo de continuar estudando. Escreveu Resposta a Sóror Filotéia — defesa filosófica do direito das mulheres ao saber. Primeiro Sueño — poema filosófico-cósmico sobre a alma em busca do conhecimento. Foi forçada a calar nos últimos anos. Morreu cuidando de outras freiras na peste.
Princesa palatina exilada em Haia. Em 1643, escreveu a Descartes pedindo que explicasse como a alma imaterial pode mover o corpo material. Descartes — incomodado — não conseguiu responder satisfatoriamente. A correspondência (sobrevivente) é o primeiro grande questionamento ao dualismo cartesiano e levou Descartes a escrever As Paixões da Alma, dedicado a ela. Sem Elisabeth, não há filosofia das paixões em Descartes.
Duquesa de Newcastle. Primeira mulher a publicar livros de filosofia natural sob seu próprio nome na Inglaterra. Escreveu Observations upon Experimental Philosophy, Philosophical Letters, e a primeira ficção científica em inglês — The Blazing World. Defendeu materialismo vitalista (matéria pensante) contra Descartes e Hobbes. Primeira mulher a visitar a Royal Society (1667).
Sofreu de dores de cabeça crônicas a vida toda. Estudou intensamente filosofia, hebraico, cabala. Escreveu Princípios da Filosofia Mais Antiga e Moderna (publicado anonimamente em 1690 após sua morte) — sistema metafísico monista que influenciou Leibniz (que a citou explicitamente como influência sobre suas mônadas). Espírito e matéria como graus de uma única substância viva.
Em 1694 propôs a criação de "uma espécie de mosteiro protestante" — academia residencial para mulheres dedicada à filosofia, ciência e teologia. A Serious Proposal to the Ladies. Em 1700, em Some Reflections upon Marriage: "Se todos os homens são livres por nascimento, como é que todas as mulheres nascem escravas?" — pergunta filosófica que precede Wollstonecraft em quase um século.
Marquesa francesa. Tradutora dos Principia de Newton para o francês — tradução ainda em uso hoje, com comentários originais que estabeleceram a versão newtoniana da mecânica na França. Mais: previu corretamente que a luz infravermelha existia. Companheira intelectual de Voltaire. Morreu aos 42 dando à luz aos 5 filhos.
Em 1792 publicou A Vindicação dos Direitos da Mulher — primeiro tratado filosófico sistemático em inglês defendendo a educação plena das mulheres e a igualdade racional. Argumentou contra Rousseau (que defendia educação diferenciada). Morreu aos 38 ao dar à luz Mary Shelley (autora de Frankenstein). Pedra fundadora do feminismo filosófico moderno.
Companheira intelectual de John Stuart Mill por décadas antes de se casarem. O próprio Mill atribuiu a ela co-autoria de Sobre a Liberdade (1859) e ideias centrais de A Sujeição das Mulheres (1869). Suas próprias Enfranchisement of Women (1851) é tratado pioneiro do feminismo liberal. Foi sistematicamente desacreditada após sua morte — só nas últimas décadas seu papel é reconhecido.
Nascida escrava em Nova York como Isabella Baumfree. Fugiu em 1826. Em 1843, mudou o nome para Sojourner Truth e tornou-se pregadora itinerante. Em 1851, no Convenção de Direitos das Mulheres em Akron, Ohio, fez o discurso "E não sou eu uma mulher?" — peça filosófica oral que une feminismo, abolicionismo e crítica à definição branca do "feminino". Pioneira do que viria a ser interseccionalidade.
Primeira mulher do círculo transcendentalista americano (com Emerson, Thoreau). Editora da revista The Dial. Escreveu Mulher no Século XIX (1845) — defesa da plena igualdade intelectual e profissional feminina na chave transcendentalista. Morreu aos 40 em naufrágio voltando da Itália, onde participara da revolução de 1848.
Aristocrata russa, viajou pelo mundo (incluindo, segundo ela, longas estadas no Tibete). Em 1875 fundou em Nova York a Sociedade Teosófica com Henry Olcott. Escreveu Isis sem Véu (1877) e A Doutrina Secreta (1888) — síntese monumental entre filosofia oriental, ocidental, ciência moderna e ocultismo. Trouxe para o Ocidente moderno termos como karma, reencarnação, chakras. Influenciou Yeats, Kandinsky, Mondrian, Krishnamurti.
Sucessora de Blavatsky. Presidente da Sociedade Teosófica de 1907 até a morte. Mudou-se para a Índia, defendeu a independência indiana, fundou o Indian Home Rule Movement (com Tilak). Reconheceu Krishnamurti como "veículo do mestre mundial" — depois ele rejeitou esse papel. Escritora prolífica em filosofia oriental, ética, educação.
Britânica nascida, naturalizada americana. Após romper com a Sociedade Teosófica, fundou a Escola Arcana e ditou (segundo ela) 24 livros do "Tibetano" (Djwhal Khul). Sistematizou o "raio-iogue" e a "meditação ocidental". Influenciou o Movimento Nova Era, terapias transpessoais, ecumenismo religioso do séc. XX.
Russa estabelecida na Índia (Vale de Kullu). Junto com o marido Nicholas Roerich, criou o sistema do Agni Yoga ou "Ética Viva" — síntese de teosofia, budismo tibetano e cristianismo místico em 14 livros. Traduziu para o russo a Doutrina Secreta de Blavatsky. Fundou o Pacto Roerich (proteção internacional do patrimônio cultural).
Mística bengali considerada por muitos a mais venerada santa hindu do séc. XX. Sem educação formal, falava de vedanta, advaita, bhakti com fluência. Atraiu seguidores como Indira Gandhi, Sri Aurobindo, Paramahansa Yogananda. Aldous Huxley escreveu sobre ela. Sua filosofia: a unidade última (kheyala) que se manifesta como brincadeira (lila) divina.
Francesa que se tornou companheira espiritual e co-fundadora da yoga integral com Sri Aurobindo. Após a morte dele em 1950, dirigiu sozinha o ashram de Pondicherry e fundou Auroville (1968) — cidade experimental para a unidade humana. Suas Conversações e L'Agenda (registros minuciosos de experiências em consciência) são documentos filosóficos únicos.
Co-fundadora da Hull House em Chicago — primeira settlement house dos EUA. Pragmatista contemporânea de Dewey e James. Escreveu Democracy and Social Ethics (1902). Nobel da Paz em 1931. Pioneira da sociologia americana e da filosofia política aplicada. Frequentemente excluída do cânone pragmatista por ser mulher e ativista.
Discípula de Husserl, sua assistente em Friburgo. Escreveu sua tese Sobre o Problema da Empatia (1916). Convertida do judaísmo ao catolicismo, tornou-se carmelita descalça (Teresa Benedicta da Cruz). Escreveu Ser Finito e Ser Eterno. Capturada na Holanda, morta em Auschwitz em 1942. Canonizada em 1998. Co-padroeira da Europa.
Filósofa francesa de origem judaica. Trabalhou em fábricas para entender a condição operária. Lutou na Guerra Civil Espanhola. Sua filosofia une marxismo, cristianismo místico e platonismo. Conceitos centrais: atenção, espera (attente), gravidade, graça. Morreu aos 34 em exílio em Londres, recusando comer mais do que franceses ocupados podiam.
Discípula de Heidegger e Jaspers. Fugiu do nazismo. Analisou totalitarismo (nazismo e stalinismo) como fenômeno político novo. A Condição Humana (1958): vita activa em três modos — labor, trabalho, ação. Eichmann em Jerusalém (1963): "banalidade do mal". Recusou-se a ser chamada de filósofa: "sou teórica política".
"Não se nasce mulher, torna-se". O Segundo Sexo (1949) é o livro fundador do feminismo filosófico moderno: análise existencialista da condição feminina como "Outro" do homem. A Ética da Ambiguidade (1947): liberdade existencial e responsabilidade. Companheira intelectual de Sartre por toda a vida — relação aberta documentada em cartas e memórias.
Discípula de Whitehead. Sua Philosophy in a New Key (1942) propõe a forma simbólica como categoria fundamental da mente humana — música, ritual e mito como modos cognitivos tão sérios quanto a ciência. Mind: An Essay on Human Feeling (3 vols., 1967–1982) tenta unificar fenomenologia e biologia da mente. Pioneira esquecida da filosofia da mente americana.
Primeira do "quarteto de Oxford" (com Anscombe, Foot, Midgley) que reabriu a filosofia moral aos problemas concretos no pós-guerra. Sua The Sovereignty of Good (1970) reabilita Platão e a ideia do Bem como atenção amorosa à realidade. Romance filosófico em Sob a Rede, O Mar, o Mar. Padroeira do realismo moral.
Discípula e tradutora de Wittgenstein. Suas Investigações Filosóficas em inglês são tradução dela. Publicou Intention (1957) — peça fundadora da filosofia da ação. Em Modern Moral Philosophy (1958) cunhou o termo "ética da virtude" e diagnosticou o vácuo da ética moderna sem Deus. Católica devota e mãe de sete filhos.
Inventou o "trolley problem" (problema do bonde) em 1967 — experimento mental hoje central em ética e debates sobre IA. Sua Natural Goodness (2001) reabilita o naturalismo aristotélico: a ética é parte da história natural humana. Co-fundou a Oxfam. Crítica do utilitarismo e do não-cognitivismo moral.
Última do quarteto de Oxford a publicar — só começou a escrever após a meia-idade. Beast and Man (1978): natureza humana e animalidade. Crítica feroz do reducionismo científico (Dawkins, Wilson). Para ela, mitos e ciência são linguagens complementares. Continuou ensaísta brilhante até morrer aos 99 anos.
Primeira americana ordenada monja budista tibetana (em 1970, pelo 16º Karmapa). Posteriormente devolveu os votos para se casar e criar três filhos. Reconhecida pelo lama Karma Dorje Rinpoche em 2007 como emanação de Machig Labdrön. Autora de Mulheres de Sabedoria (1984) — primeira recuperação ocidental das vidas de yoginis tibetanas. Fundou o centro Tara Mandala no Colorado.
Monja budista americana, discípula de Chögyam Trungpa Rinpoche. Diretora-fundadora do Gampo Abbey em Nova Escócia. Suas obras (When Things Fall Apart, The Places That Scare You) tornaram-se entradas populares ao budismo tibetano no Ocidente. Filosofia: prática da maitri (bondade amorosa para consigo) como base para todas as outras.
Junto com Amartya Sen, desenvolveu a abordagem das capacidades — quadro normativo que avalia justiça pelo que pessoas conseguem efetivamente fazer e ser. A Fragilidade da Bondade (1986) reabilita Aristóteles para a contemporaneidade. Mulheres e Desenvolvimento Humano (2000) aplica o quadro a injustiças globais de gênero.
Problemas de Gênero (1990) reescreveu o pensamento sobre identidade: gênero como performatividade, não essência. Cita Beauvoir, Foucault, Lacan. Trouxe o pós-estruturalismo ao feminismo. Posteriormente, sua filosofia política (Quadros de Guerra, Vida Precária) analisa quem conta como "vida lamentável" no discurso público contemporâneo.
Discípula de Marcuse e Adorno em Frankfurt. Filósofa, ativista, ex-militante dos Panteras Negras. Encarcerada injustamente em 1970, absolvida em 1972. Mulheres, Raça e Classe (1981) é tratado-marco da interseccionalidade. Pioneira do abolicionismo penal contemporâneo. Continua ativa.
Pseudônimo grafado em letras minúsculas (em homenagem à bisavó). Não Sou Eu uma Mulher? (1981) — feminismo negro a partir do discurso de Sojourner Truth. Ensinando a Transgredir (1994) — pedagogia crítica feminista. Desenvolveu a noção de "amor radical" como prática política. Mais de 30 livros que cruzam filosofia, feminismo, cultura, educação.
Filósofa, antropóloga, política. Pioneira do feminismo negro latinoamericano. Conceitos de amefricanidade (identidade negra das Américas) e pretuguês (a língua portuguesa atravessada pelas africanidades). Releitura de Lacan e Fanon a partir do Brasil. Releitura de Lacan e Fanon a partir do Brasil negro. Hoje cada vez mais lida internacionalmente.
Doutora em filosofia da educação pela USP. Fundou o Geledés — Instituto da Mulher Negra (1988), um dos mais importantes centros de pensamento e ação feminista negra do Brasil. Cunhou a noção de "epistemicídio" — o assassinato sistemático dos saberes negros. Racismo, Sexismo e Desigualdade no Brasil é referência.
Maior especialista brasileira em Espinosa. Sua A Nervura do Real (2 vols.) é trabalho monumental. Em filosofia política: Cultura e Democracia (1981), Brasil: Mito Fundador e Sociedade Autoritária (2000). Foi secretária de cultura de São Paulo. Professora emérita da USP.
Primeira mestra zen japonesa documentada a receber a transmissão do dharma. Filha da nobreza Hojo, tornou-se monja após a morte do marido. Discípula de Wuxue Zuyuan (mestre chinês trazido ao Japão). Fundou o Keiaiji, primeiro mosteiro zen feminino do Japão. Ensinou que o caminho zen não tem gênero. Sua transmissão é contestada por alguns historiadores, mas é sustentada pela tradição Rinzai.
Psicanalista alemã que rompeu com Freud em pontos centrais. Recusou a "inveja do pênis" como categoria universal. Em Feminine Psychology (1922–1937), defendeu que a desigualdade social — não a anatomia — produz a "psicologia feminina". Pioneira da psicologia social humanista, influenciou Karen Horney e o feminismo psicanalítico subsequente.
Discípula crítica de Lacan, expulsa da Escola Freudiana após Speculum, de l'autre femme (1974) — relê Platão, Freud, Hegel mostrando que a tradição filosófica ocidental é construída pela exclusão simbólica do feminino. Defende uma "ética da diferença sexual" baseada em duas subjetividades irredutíveis. Crítica radical do "neutro" que sempre foi masculino.
Búlgara naturalizada francesa. Em Poderes do Horror (1980) cunhou a noção de abjeto — o que se cospe para fora do corpo simbólico, mas continua marginal. Estrangeiros para Nós Mesmos (1988): a alteridade do estrangeiro como espelho da alteridade interna. Combina Hegel, Lacan, fenomenologia e linguística numa síntese própria.
"Manifesto Ciborgue" (1985): a fronteira entre humano, animal e máquina já foi atravessada — a política tem que aceitar essa hibridação. Staying with the Trouble (2016): em vez de transcender ou desistir, "ficar com o problema" da era ecológica. Filosofia entrelaçada com biologia, feminismo, ficção científica.
Discípula de Ortega y Gasset. Exilada após a Guerra Civil Espanhola — passou décadas em Cuba, México, Itália. Desenvolveu a "razão poética" — modo de pensamento que não opõe filosofia e poesia, sentimento e conceito. Filosofia y Poesía (1939). Claros del Bosque (1977). Prêmio Cervantes 1988. Voltou a Espanha em 1984 após 45 anos de exílio.
Em The Invention of Women: Making an African Sense of Western Gender Discourses (1997), defende que "gênero" como categoria binária foi imposto pela colonização europeia em sociedades africanas (especialmente yoruba) que organizavam socialmente por idade, hierarquia familiar e função, não por sexo. Crítica radical à universalização ocidental do feminismo.
Quando se olha para mil mulheres pensando em três continentes ao longo de três mil anos, certos padrões emergem.
Quase todas reabilitam o corpo como locus do saber: tanto as místicas (Hildegarda, Teresa, Mira) quanto as fenomenólogas (Stein, Beauvoir) recusam a separação cartesiana entre mente desencarnada e corpo bruto. O conhecimento passa pelo sentir, sofrer, gestar. Sun Bu'er sistematiza alquimia interna feminina; Akka Mahadevi caminha nua porque o corpo é também escritura sagrada.
Padrão notável: muitíssimas pensadoras escolheram solteirice, viuvez prolongada, casamento heterodoxo, ou monaquismo. Hipárquia escolheu Crates, o cínico, e viveu nas ruas. Andal recusou casamento humano. Catarina de Siena fez voto privado de virgindade aos 7. Sor Juana entrou no convento para estudar. Wollstonecraft viveu fora do casamento. Esse padrão diz algo: a estrutura matrimonial padrão era incompatível com a vida intelectual.
Diotima ensina Sócrates a "escada do amor". Rabi'a inventa o amor divino puro. Mira ama Krishna. Akka ama Chennamallikarjuna. Hildegarda canta a "viriditas", o verdejar da graça. Murdoch reabilita o amor como ato de atenção. Para muitas, o amor não é sentimento secundário ao saber — é o método pelo qual o real se desnuda.
Simone Weil definiu a atenção como mais alta forma de oração — e como o cerne do ato ético. Sei Shōnagon faz da atenção aos detalhes uma estética. Tsultrim Allione faz da escuta dos próprios "demônios" uma prática terapêutica. Murdoch chama atenção amorosa "ver a realidade como ela é". O olhar feminino milenar parece ter desenvolvido uma fenomenologia da atenção que a tradição masculina não codificou.
Catarina de Siena aconselha papas. Christine de Pizan defende as mulheres da história. Wollstonecraft funda os direitos. Arendt analisa a banalidade do mal. Davis denuncia o complexo carcerário. Lélia Gonzalez nomeia a amefricanidade. A política, nas mulheres, raramente é abstrata — é prática, situada, conectada ao corpo concreto que sofre.
Mulheres frequentemente operam como pontes culturais. Lalleshwari sintetiza shaivismo e sufismo. Blavatsky funde Oriente e Ocidente. Yeshe Tsogyel preserva tanto Bön quanto budismo. Edith Stein cruza fenomenologia e mística carmelita. Anne Conway combina cabala e platonismo. Sor Juana atravessa escolástica e nova ciência. A periferia das instituições masculinas, paradoxalmente, libera para a síntese.
Quando o acesso à educação foi negado, mulheres aprenderam mais. Sor Juana lia em latim aos 5. Murasaki dominou chinês mais rápido que o irmão. Émilie du Châtelet traduziu Newton. Stein escrevia tese aos 25. Hipátia dominava Diofanto. O padrão se repete por dois mil anos: quando a sociedade dificulta, a inteligência feminina compensa pela intensidade. A história da filosofia feminina é, em parte, uma história de hiperexcelência forçada.
Quarenta livros escritos por mulheres que mudaram (ou deveriam ter mudado) a história do pensamento.
| Obra | Autora | Ano | Tradição |
|---|---|---|---|
| Hinos do Rigveda (Mandala X) | Ghosha · Apala · Lopamudra | c. 1000 a.C. | Védica |
| Diálogos no Brihadaranyaka Upanishad | Gargi · Maitreyi | c. 700 a.C. | Upanishádica |
| Hino a Afrodite | Sappho de Lesbos | c. 600 a.C. | Grega |
| Diálogo no Mahabharata, Shanti Parva 308 | Sulabha | c. 500 a.C. | Indiana |
| Therigatha (canções das anciãs) | Mahapajapati · Khema · outras | c. 500 a.C. | Budista |
| Banquete (diálogo de Diotima) | Diotima de Mantinea | c. 380 a.C. | Grega |
| Lições para Mulheres (Nüjie) | Ban Zhao | c. 100 d.C. | Confuciana |
| Comentários a Diofanto e Apolônio | Hipátia de Alexandria | c. 400 | Neoplatônica |
| Aforismos sobre o Amor Divino | Rabi'a al-Adawiyya | c. 770 | Sufi |
| Tiruppavai · Nachiar Tirumoli | Andal | c. 850 | Bhakti tamil |
| Lady of the Lotus-Born (autobiografia) | Yeshe Tsogyel | séc. IX | Vajrayana |
| Genji Monogatari (O Conto de Genji) | Murasaki Shikibu | c. 1010 | Heian |
| O Livro do Travesseiro | Sei Shōnagon | c. 1002 | Heian |
| Tratado de Alquimia Interna Feminina | Sun Bu'er | séc. XII | Taoísta |
| Scivias | Hildegarda de Bingen | 1141–1151 | Mística cristã |
| Vachanas | Akka Mahadevi | séc. XII | Bhakti shaivita |
| A Luz Fluente da Divindade | Mechthild de Magdeburgo | 1250 | Beguina |
| O Espelho das Almas Simples | Marguerite Porete | c. 1295 | Mística radical |
| Vakhs | Lalleshwari (Lal Ded) | séc. XIV | Shaivismo Caxemira |
| Diálogo da Divina Providência | Catarina de Siena | c. 1378 | Mística católica |
| Revelações do Amor Divino | Juliana de Norwich | c. 1395 | Mística inglesa |
| O Livro da Cidade das Damas | Christine de Pizan | 1405 | Querela |
| Bhajans devocionais a Krishna | Mirabai | séc. XVI | Bhakti |
| Castelo Interior | Teresa de Ávila | 1577 | Mística carmelita |
| Cartas a Descartes | Elisabeth da Boêmia | 1643–1649 | Cartesiana |
| Resposta a Sóror Filotéia · Primeiro Sueño | Sor Juana Inés de la Cruz | 1691 | Barroco mexicano |
| Princípios da Filosofia (Conway) | Anne Conway | 1690 (póst.) | Platonismo Cambridge |
| A Serious Proposal to the Ladies | Mary Astell | 1694 | Proto-feminista |
| Tradução comentada dos Principia | Émilie du Châtelet | 1759 (póst.) | Iluminismo |
| A Vindicação dos Direitos da Mulher | Mary Wollstonecraft | 1792 | Feminismo iluminista |
| Mulher no Século XIX | Sarah Margaret Fuller | 1845 | Transcendentalismo |
| Discurso "Ain't I a Woman?" | Sojourner Truth | 1851 | Abolicionismo |
| A Doutrina Secreta | Helena Blavatsky | 1888 | Teosofia |
| Sobre o Problema da Empatia | Edith Stein | 1916 | Fenomenologia |
| A Gravidade e a Graça | Simone Weil | 1947 (póst.) | Mística política |
| O Segundo Sexo | Simone de Beauvoir | 1949 | Existencialismo |
| A Condição Humana | Hannah Arendt | 1958 | Política |
| The Sovereignty of Good | Iris Murdoch | 1970 | Ética |
| Speculum, de l'autre femme | Luce Irigaray | 1974 | Diferença sexual |
| Mulheres, Raça e Classe | Angela Davis | 1981 | Feminismo negro |
| Manifesto Ciborgue | Donna Haraway | 1985 | Tecnoecologia |
| A Fragilidade da Bondade | Martha Nussbaum | 1986 | Ética das capacidades |
| Problemas de Gênero | Judith Butler | 1990 | Teoria queer |
| Por um Feminismo Afro-Latino-Americano | Lélia Gonzalez | 1988 | Brasileira |
Termos cunhados por mulheres ou particularmente desenvolvidos por elas.
sânscrito · "expositora do Brahman"
Termo sânscrito para mulher conhecedora de Brahma Vidya — sabedoria suprema. Gargi, Maitreyi e Sulabha são as brahmavadinis arquetípicas. A mera existência do termo na tradição védica desmente a ideia de que filosofia indiana antiga era exclusivamente masculina.
árabe · "amor"
Cunhado por Rabi'a al-Adawiyya. O amor de Deus por si mesmo, sem temor do inferno nem desejo do paraíso. Doutrina que se tornou central em todo o sufismo posterior. Antes de Rabi'a, o asceticismo islâmico era movido pelo medo. Depois dela, pelo amor.
francês · l'abject (Kristeva)
Conceito de Julia Kristeva. O que é cuspido para fora do corpo simbólico (cadáver, fluidos, comida apodrecida) mas continua à beira, ameaçando. Categoria-chave para pensar racismo, xenofobia, homofobia — todos modos de "abjetar" o outro.
teoria queer · Butler
De Judith Butler. Gênero não é essência nem expressão de algo interior, é o efeito de atos repetidos que parecem expressar uma essência. A repetição constrói a ilusão da naturalidade. Conceito que reescreveu a teoria feminista.
português · Lélia Gonzalez
Cunhado por Lélia Gonzalez. A identidade negra das Américas — não africana pura nem americana branca, mas uma síntese histórica criada na diáspora. Conceito que recusa simultaneamente o eurocentrismo e a idealização nostálgica da África.
alemão · Banalität des Bösen
Hannah Arendt no julgamento de Eichmann (1961). O mal extremo pode vir não de monstros sádicos, mas de funcionários medianos incapazes de pensar criticamente. Conceito que reescreveu a filosofia moral pós-Holocausto.
francês · attention (Weil)
Para Simone Weil, a forma mais alta de oração e a base de toda ética. Atenção é "esperar pela verdade sem nada querer", esvaziando-se para que o outro possa aparecer. Não é concentração ativa — é receptividade radical.
capabilities (Nussbaum & Sen)
Quadro normativo desenvolvido por Martha Nussbaum (com Amartya Sen). Avalia justiça pelo que pessoas concretas conseguem efetivamente fazer e ser, não pela renda ou recursos abstratos. Lista de 10 capacidades centrais.
latim · "verdor"
Cunhado por Hildegarda de Bingen. A "verdejância" — força vital divina que faz a alma e o mundo florescerem. Junta cosmologia, teologia e biologia numa metáfora botânica. A graça não é abstrata: é seiva.
sânscrito · "não isso, não isso"
Método de negação metafísica usado por Gargi Vachaknavi nos Upanishads. O Brahman não pode ser definido positivamente — só negativamente, eliminando todas as identificações limitadas. Antecipa em 2.500 anos a teologia apofática de Mestre Eckhart.
alemão · Edith Stein
Tese de Edith Stein (1916). Empatia não é simpatia (sentir o que o outro sente) nem projeção (atribuir-lhe meus sentimentos). É um ato sui generis de captar a vida vivida do outro como vivida-pelo-outro. Categoria fenomenológica fundamental.
sânscrito · "jogo divino"
Conceito particularmente desenvolvido por Anandamayi Ma e pela tradição vaishnava feminina. O cosmos como jogo livre do absoluto consigo mesmo. A vida como brincadeira (não-séria) do divino, que se torna séria apenas quando esquecemos sua natureza lúdica.