VOL. II · MMXXVI
— uma genealogia oculta —
N. 02 · SOPHIA FEMINAE
ANNO DOMINI · MMXXVI

SOPHIA
FEMINAE— atlas das mulheres que pensaram o mundo —

Antes de Sócrates, havia Themistocleia. Antes de Platão, Aspásia. Antes de Diógenes, Hipárquia. De Yajnavalkya a Mahadevi, de Rabi'a a Hildegarda, de Hypatia a Mira. Três mil anos de pensamento humano através das vozes que o cânone preferiu esquecer.



10 ERAS · 80+ PENSADORAS · 8 TRADIÇÕES · 40+ OBRAS · 7 TEMAS
— Capítulo II —

As tradições
do mundo (versão feminina)

Onde a filosofia floresceu, sempre houve mulheres pensando ao lado, debaixo ou acima dos homens.

Tradição Indiana
desde c. 1500 a.C.

As brahmavadinis dos Upanishads, as autoras dos hinos do Rigveda, as bhakti yoginis medievais, as gurus modernas. Linhagem feminina contínua de 3.500 anos.

Gargi Vachaknavi · Maitreyi · Lopamudra · Apala · Ghosha · Sulabha · Andal · Akka Mahadevi · Lalleshwari · Mirabai · Bahinabai · Anandamayi Ma · Sarada Devi · The Mother (Mirra Alfassa)
Φ
Tradição Grega
desde c. 600 a.C.

Sacerdotisas, esposas-discípulas, hetairas filósofas, neoplatônicas. Várias ensinaram homens que ficaram famosos. Quase todas foram apagadas pelos doxógrafos.

Themistocleia · Diotima · Aspásia · Hipárquia · Hipátia · Sappho · Theano · Arete · Perictione · Aesara · Phintys · Leontion · Sosipatra · Asclepigenia
Tradição Sufi / Islâmica
desde c. 700 d.C.

As mulheres sufis fundaram a doutrina do amor divino que se tornou central em Rumi e Ibn Arabi. Rabi'a transformou o sufismo em mística do amor.

Rabi'a al-Adawiyya · Fatima de Nishapur · Aisha al-Ba'uniyya · Lalla Mimuna · Sayyida Nafisa · Rabi'a Balkhi
Tradição Cristã / Mística
desde c. 200 d.C.

Místicas medievais, místicas renascentistas, teólogas modernas. Algumas escreveram em seus mosteiros enquanto homens disputavam universidades.

Hildegarda de Bingen · Juliana de Norwich · Marguerite Porete · Mechthild de Magdeburgo · Teresa de Ávila · Catarina de Siena · Hadewijch · Edith Stein
Tradição Budista
desde c. 500 a.C.

Therigatha (poemas das primeiras monjas), as dakinis tibetanas, as tertöns que revelaram tesouros sagrados, as professoras zen do Japão.

Mahapajapati Gotami · Khema · Yeshe Tsogyel · Machig Labdrön · Tsultrim Allione · Pema Chödrön · Dipa Ma · Nichiren Daishonin · Mugai Nyodai
Tradição Chinesa
desde c. 100 d.C.

Filósofas confucianas que ensinaram virtudes femininas, alquimistas taoístas, monjas zen-chan, poetisas-pensadoras Tang e Song.

Ban Zhao · Sun Bu'er · Li Qingzhao · Xue Tao · Guan Daosheng · Wu Zhao
Tradição Esotérica
séc. XIX–XX

Mulheres que sintetizaram tradições orientais e ocidentais em sistemas filosóficos novos: Teosofia, antroposofia, espiritualidade comparada.

Helena Blavatsky · Annie Besant · Alice Bailey · Helena Roerich · Mabel Collins · Hilma af Klint · Florence Scovel Shinn
Tradição Acadêmica / Moderna
séc. XV–XXI

As primeiras mulheres a entrarem nas universidades, fundadoras de feminismo, ética das virtudes, fenomenologia, filosofia analítica e descolonial.

Christine de Pizan · Mary Wollstonecraft · Hannah Arendt · Simone de Beauvoir · Iris Murdoch · Edith Stein · Simone Weil · Martha Nussbaum · Anne Conway · Margaret Cavendish · Elisabeth da Boêmia · Mary Astell · Harriet Taylor Mill · Philippa Foot · Mary Midgley · Elizabeth Anscombe · Angela Davis · Lélia Gonzalez · Sueli Carneiro · bell hooks · Judith Butler
— Capítulo III —

As dez
eras das pensadoras

Cada era da filosofia teve mulheres centrais — mesmo quando a história só registrou as suas pegadas.

Era Védica

— "As que cantaram os primeiros hinos" —

O Rigveda, o mais antigo texto filosófico-religioso do mundo, atribui hinos a 27 rishikas — sábias videntes. Ghosha, Apala e Lopamudra estão entre as autoras nomeadas. Os Upanishads inauguram o questionamento metafísico — e fazem-no através de mulheres como Gargi Vachaknavi (que desafia Yajnavalkya em debate público) e Maitreyi (que recusa a riqueza pela imortalidade do conhecimento).

FOCO · HINOS DEFENSORAS · BRAHMAVADINIS · DEBATE PÚBLICO
1500

500 a.C.
600

400 a.C.

Pré-socrática Feminina

— "As mestras dos pais da filosofia" —

Themistocleia ensina Pitágoras em Delfos. Sappho de Lesbos inaugura a poesia lírica filosófica. Theano, esposa e provavelmente sucessora de Pitágoras, lidera a escola após sua morte. Aspásia de Mileto chega a Atenas, abre uma escola de retórica, ensina Péricles e Sócrates. As pitagóricas Aesara, Phintys e Perictione escrevem tratados sobre ética, harmonia e estrutura familiar.

FOCO · SACERDOTISAS · PITAGÓRICAS · MESTRAS DE SÓCRATES

Clássica & Helenística

— "Diotima, Hipárquia, Arete" —

Diotima de Mantinea aparece em Platão como mestra de Sócrates sobre o amor — a única mulher a quem Sócrates atribui ensinamento direto. Arete de Cirene sucede o pai Aristipo na liderança da escola cirenaica. Hipárquia abandona riqueza para se casar com Crates, o cínico, e viver filosofando nas ruas. Leontion, hetaira-filósofa, escreve refutação a Teofrasto. As pitagóricas tardias publicam tratados.

FOCO · CINISMO · CIRENAÍSMO · HETAIRA-FILÓSOFAS
469

200 a.C.
200 d.C.

500 d.C.

Antiguidade Tardia

— "Hipátia e as neoplatônicas" —

Hipátia de Alexandria torna-se a maior matemática-filósofa de seu tempo, dirige a escola neoplatônica, é assassinada por uma multidão cristã em 415 — fim simbólico da Antiguidade pagã. Sosipatra de Éfeso, vidente neoplatônica, é descrita como tendo conhecimentos sobrenaturais. Asclepigenia, filha de Plutarco de Atenas, ensina teurgia (incluindo a Proclo, sucessor da Academia).

FOCO · NEOPLATONISMO · MATEMÁTICA · TEURGIA

Medieval Mística

— "As que falaram com Deus em primeira pessoa" —

Hildegarda de Bingen escreve Scivias (visões teológicas), funda dois mosteiros, compõe música sacra, pratica medicina. Marguerite Porete escreve O Espelho das Almas Simples e é queimada na fogueira por ele em 1310. Juliana de Norwich tem visões sobre Deus como mãe. Mechthild de Magdeburgo descreve a alma como esposa de Cristo. Catarina de Siena aconselha papas. Rabi'a no Islã, Lalleshwari na Caxemira.

FOCO · VISÃO MÍSTICA · TEOLOGIA · INSURGÊNCIA
700

1400
800

1400

Bhakti & Dakini

— "Fiéis-poetisas e detentoras de tesouros" —

Yeshe Tsogyel torna-se a "Mãe do Vajrayana" no Tibete — consorte e discípula igual de Padmasambhava. Machig Labdrön funda a linhagem Chöd. Andal é a única mulher entre os 12 Alvars do sul da Índia. Akka Mahadevi caminha nua por devoção a Shiva. Lalleshwari faz o mesmo na Caxemira, sintetizando shaivismo e sufismo. Mirabai escreve poesias a Krishna que ainda hoje se cantam.

FOCO · BHAKTI · TANTRA TIBETANO · POESIA DEVOCIONAL

Renascimento & Querela

— "Christine de Pizan defende as mulheres" —

Christine de Pizan abre, em 1405, a Querela das Mulheres com O Livro da Cidade das Damas — primeira defesa filosófica sistemática da igualdade intelectual feminina. Murasaki Shikibu (Japão, séc. XI) escreve o primeiro romance psicológico do mundo. Marie de Gournay edita Montaigne. Anne Conway, no séc. XVII, escreve metafísica que influencia Leibniz. Sor Juana Inés da Cruz no México.

FOCO · QUERELA DAS MULHERES · ROMANCE FILOSÓFICO · METAFÍSICA
1000

1700
1700

1900

Iluminismo Feminista

— "As primeiras a reivindicar direitos por escrito" —

Mary Astell propõe academias para mulheres em 1694. Mary Wollstonecraft publica em 1792 a Vindicação dos Direitos da Mulher — pedra fundadora do feminismo filosófico. Margaret Cavendish escreve metafísica. Émilie du Châtelet traduz Newton. Harriet Taylor Mill colabora (e provavelmente excede) seu marido John Stuart. Sojourner Truth, Sarah Margaret Fuller, Harriet Martineau ampliam a discussão para raça e classe.

FOCO · VINDICAÇÃO · ABOLICIONISMO · CIÊNCIA

Esoterismo & Síntese

— "Quando o Oriente entrou no Ocidente pelas mulheres" —

Helena Blavatsky funda a Sociedade Teosófica em 1875 — síntese entre filosofia oriental, ciência ocidental e ocultismo. Annie Besant herda a liderança e expande para a Índia. Alice Bailey desenvolve teosofia esotérica. Helena Roerich escreve o Agni Yoga. Hilma af Klint pinta visões teosóficas (esquecida até 1986). Elas trouxeram para o Ocidente moderno o vocabulário de karma, reencarnação, chakras.

FOCO · TEOSOFIA · OCULTISMO · SÍNTESE LESTE-OESTE
1850

1950
1900

HOJE

Contemporânea Plural

— "Cada tradição filosófica do séc. XX teve uma mulher central" —

Edith Stein na fenomenologia (mártir em Auschwitz). Hannah Arendt na filosofia política. Simone de Beauvoir no existencialismo. Simone Weil na mística da atenção. Iris Murdoch e o "quarteto de Oxford" (com Anscombe, Foot, Midgley) revolucionam a ética. Susanne Langer na filosofia da mente. Martha Nussbaum nas capacidades. Judith Butler na teoria queer. Angela Davis e bell hooks no feminismo negro. Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro no feminismo afro-brasileiro.

FOCO · FENOMENOLOGIA · ÉTICA · POLÍTICA · DESCOLONIZAÇÃO
— Capítulo IV —

As oitenta
pensadoras

Em ordem cronológica. Cada nome carrega uma genealogia silenciada.

№ 01 · ÍNDIA VÉDICA

Ghosha

séc. X a.C. (?)
Rishika · Rigveda

Uma das 27 mulheres às quais o Rigveda atribui hinos. Ghosha é mencionada nominalmente como autora de hinos do livro X. Sofria de doença de pele e teria sido curada pelos Ashwins (deuses gêmeos da medicina) — seus hinos são poéticos pedidos de cura.

ObraHinos do Rigveda, Mandala X (atribuídos)
№ 02 · ÍNDIA VÉDICA

Lopamudra

séc. IX a.C. (?)
Rishika · Rigveda

Esposa do sábio Agastya. O Rigveda preserva um diálogo entre eles (1.179) onde Lopamudra critica a abstinência sexual do marido em nome do dever de procriação — texto raríssimo, dialógico, filosoficamente sofisticado para 3.000 anos atrás.

ObraHino dialogado Rigveda 1.179
№ 03 · ÍNDIA VÉDICA

Apala

séc. IX a.C. (?)
Rishika · Rigveda

Autora do hino Rigveda 8.91. Mulher rejeitada pelo marido por causa de doença de pele, encontrou Indra, ofereceu-lhe Soma, e foi curada. Sua história foi lida como alegoria da alma feminina sofrida que conquista o divino pelo seu próprio esforço.

ObraHino Rigveda 8.91
№ 04 · ÍNDIA UPANISHÁDICA

Gargi Vachaknavi

séc. VIII–VII a.C.
Brahmavadini

A maior filósofa-debatedora do mundo upanishádico. No Brihadaranyaka Upanishad 3.6 e 3.8, ela desafia o sábio Yajnavalkya em debate público na corte do rei Janaka. Pergunta sucessivamente em que está tecido o universo: água, ar, espaço… até forçar Yajnavalkya a recorrer ao Imperecível (akṣara). Suas perguntas inauguram a tradição da metafísica indiana de "neti neti" (não isso, não isso).

ObraDiálogos no Brihadaranyaka Upanishad 3.6 e 3.8
№ 05 · ÍNDIA UPANISHÁDICA

Maitreyi

séc. VIII a.C. (?)
Brahmavadini

Esposa-discípula de Yajnavalkya. Quando ele decide se retirar para a vida ascética e dividir bens entre as duas esposas, Maitreyi recusa — pergunta se a riqueza pode dar imortalidade. Yajnavalkya responde que não. Ela então pede que ele lhe ensine apenas o que conduz à imortalidade. Esse diálogo (Brihadaranyaka 2.4 e 4.5) é um dos textos-chave da metafísica do ātman.

ObraDiálogos no Brihadaranyaka Upanishad 2.4 e 4.5
№ 06 · GRÉCIA

Sappho de Lesbos

c. 630 – 570 a.C.
Poetisa-filósofa

Chamada por Platão de "a Décima Musa". Sua poesia lírica é a primeira expressão sofisticada na tradição ocidental da subjetividade emocional, da philia, do desejo, da consciência da finitude. Filosoficamente, antecipa Diotima: o amor (eros) como caminho de conhecimento. Apenas fragmentos sobreviveram.

ObraFragmentos líricos · Hino a Afrodite (intacto)
№ 07 · GRÉCIA

Themistocleia

séc. VI a.C.
Sacerdotisa de Delfos

A Pítia que ensinou Pitágoras suas doutrinas morais — segundo Aristóxeno (séc. IV a.C.), citado por Diógenes Laércio. Porfírio chama-a de Aristocleia. Foi a fonte da ética pitagórica. Pode-se considerá-la, com fundamento, a primeira mestra documentada do mais influente filósofo grego antes de Sócrates.

InfluênciaDoutrinas éticas de Pitágoras (via Diógenes Laércio I)
№ 08 · GRÉCIA

Theano

séc. VI a.C.
Pitagórica

Esposa (segundo a maioria das fontes) ou discípula de Pitágoras. Teria liderado a escola pitagórica após sua morte, junto com as filhas Damo e Mia. Atribuem-lhe tratados (provavelmente espúrios mas reverenciados) sobre a virtude feminina, o número, a harmonia da alma.

ObraCartas atribuídas · Tratados pseudoepígrafos
№ 09 · GRÉCIA

Aspásia de Mileto

c. 470 – 400 a.C.
Retórica · Atenas

A mulher mais influente da Atenas do séc. V a.C. Companheira de Péricles, professora de retórica de Sócrates (segundo o próprio Platão no Menexeno). Fundou uma escola que era também salão filosófico. Quatro filósofos socráticos escreveram diálogos ostentando seu nome (Antístenes, Platão, Ésquines, Xenofonte). Armand D'Angour argumenta que Diotima é seu disfarce.

InfluênciaSócrates · Péricles (Oração Fúnebre) · Diálogos socráticos
№ 10 · GRÉCIA

Diotima de Mantinea

séc. V a.C.
Sacerdotisa-filósofa

No Banquete de Platão, Sócrates atribui a ela toda sua compreensão sobre o amor. Diotima ensina a "escada de Eros" — do desejo por um corpo belo, à beleza dos corpos, à beleza das almas, das leis, das ciências, até a Beleza-em-si. É a única mulher a quem Sócrates atribui ensinamento direto. Há debate se foi histórica ou alegoria — Aspásia disfarçada, segundo alguns.

InfluênciaDoutrina platônica do Eros (via Banquete)
№ 11 · GRÉCIA

Arete de Cirene

séc. IV a.C.
Cirenaica

Filha do filósofo Aristipo, fundador da escola hedonista cirenaica. Segundo Diógenes Laércio, ela sucedeu o pai na liderança da escola — provavelmente a primeira mulher a chefiar oficialmente uma escola filosófica grega. Ensinou seu filho Aristipo, o Jovem, que continuou a tradição. Atribui-se-lhe tratados sobre filosofia natural e ética.

DiscípuloAristipo, o Jovem (sucessor da escola)
№ 12 · GRÉCIA

Hipárquia de Maroneia

c. 350 – 280 a.C.
Cínica

Única mulher entre os 82 filósofos do Vidas e Doutrinas de Diógenes Laércio. Filha de família rica da Trácia, abandonou a riqueza para se casar com o cínico Crates de Tebas. Viveu nas ruas de Atenas como ele, vestindo capa e usando o cajado. Em um simpósio, refutou Teodoro, o Ateu, com um silogismo: "O que não é errado fazer a si mesmo, não é errado fazer a outro" — golpe filosófico para defender seu direito a estudar em vez de tecer.

ObraCartas e refutações filosóficas (perdidas)
№ 13 · GRÉCIA

Leontion

séc. IV–III a.C.
Epicurista

Hetaira-filósofa atheniense, discípula do epicurismo. Cícero a menciona com admiração: ousou escrever uma refutação a Teofrasto, sucessor de Aristóteles. Plutarco também a cita. O fato de uma mulher ter escrito uma refutação técnica contra o líder do Liceu mostra que mulheres acessavam, sim, o discurso filosófico de alto nível.

ObraRefutação a Teofrasto (perdida; mencionada por Cícero)
№ 14 · ÍNDIA

Sulabha

séc. V a.C. (?)
Filósofa errante

No Mahabharata, livro Shanti Parva (308), Sulabha aparece como sannyasin (renunciante) errante que entra em debate filosófico com o rei Janaka — debate que ela vence. Defende que a alma não tem gênero e que a libertação é igualmente acessível a homens e mulheres. Texto pioneiro da metafísica do gênero.

ObraDiálogo no Mahabharata, Shanti Parva 308
№ 15 · ALEXANDRIA

Hipátia de Alexandria

c. 350 – 415 d.C.
Neoplatônica

Filha do matemático Theon, dirigiu a escola neoplatônica de Alexandria. Comentou Apolônio de Perga, Diofanto, Ptolomeu. Foi a maior matemática-filósofa de seu tempo. Em 415 d.C., uma multidão cristã (incitada pelo bispo Cirilo) a sequestrou, levou a uma igreja, despiu-a, esfolou-a com cacos de telha e queimou seus restos. Sua morte simboliza o fim da Antiguidade pagã.

ObraComentários a Diofanto, Apolônio, Ptolomeu (todos perdidos)
№ 16 · GRÉCIA TARDIA

Sosipatra de Éfeso

séc. IV d.C.
Neoplatônica vidente

Filósofa-vidente neoplatônica de Éfeso. Segundo o biógrafo Eunapio, foi educada por dois sábios caldeus que lhe transmitiram sabedoria sobrenatural. Casou-se com o filósofo Eustathius e teve filhos filósofos. Tinha fama de prever eventos à distância. Representa a fusão entre teurgia e filosofia que marcou o neoplatonismo tardio.

InfluênciaTradição neoplatônica de Pérgamo
№ 17 · GRÉCIA TARDIA

Asclepigenia de Atenas

séc. V d.C.
Neoplatônica · Teurga

Filha de Plutarco de Atenas, líder da Academia. Ensinou teurgia (a arte ritual de invocar o divino) a Proclo, que viria a ser um dos maiores filósofos neoplatônicos. Asclepigenia é o elo entre Plutarco e Proclo — sem ela, a tradição teúrgica que Proclo sistematizou se teria perdido. Mais um caso de mulher como elo invisível entre homens famosos.

DiscípuloProclo (sucessor na Academia)
№ 18 · ÍNDIA

Mahapajapati Gotami

séc. V a.C.
Budista

Tia e madrasta do Buda Gautama. Convenceu o Buda — após três pedidos recusados e a intercessão de Ananda — a fundar a primeira ordem monástica feminina (Bhikkhuni Sangha). Sem ela, o budismo seria religião apenas masculina. As Therigatha ("canções das anciãs") incluem versos de mulheres iluminadas que ela liderou.

LegadoFundação da Bhikkhuni Sangha · Therigatha
№ 19 · ÍNDIA

Khema

séc. V a.C.
Budista

Uma das duas principais discípulas femininas do Buda (junto com Uppalavanna). Ex-rainha do rei Bimbisara, célebre por sua beleza. Convertida pelo Buda, atingiu a iluminação rapidamente e tornou-se a "principal em sabedoria" entre as monjas. Seus versos no Therigatha são considerados de profundidade filosófica equivalente aos dos monges-arhats.

ObraTherigatha (versos atribuídos)
№ 20 · ISLÃ

Rabi'a al-Adawiyya

c. 717 – 801
Sufi · Basra

Nascida escrava em Basra, libertada após "luz miraculosa" sobre sua cabeça. Transformou o sufismo: antes dela, o asceticismo era praticado por medo do inferno e desejo do paraíso. Rabi'a recusou ambos. Ensinou o "amor puro" (mahabba) a Deus — amar Deus por Deus, não por recompensa. Doutrina que se tornou central em todo o misticismo sufi posterior (Ibn Arabi, Rumi). Provavelmente a mulher mais influente da história do islã.

DoutrinaMahabba (amor divino puro)
№ 21 · ISLÃ

Fátima de Nishapur

séc. IX
Sufi · Khurasan

Mestra sufi de quem o grande Bayazid Bistami (séc. IX) disse: "Em toda minha vida, encontrei um único homem verdadeiro e uma única mulher verdadeira: aquela mulher era Fátima de Nishapur." Ensinou ascese rigorosa e o caminho do amor a Deus a uma geração de sufis homens — algo registrado por At-Tirmidhi e outros.

DiscípuloBayazid Bistami (mestre sufi maior)
№ 22 · TIBETE

Yeshe Tsogyel

757 – 817
Vajrayana

"A Mãe do Vajrayana". Consorte e discípula igual de Padmasambhava (segundo Buda). Atingiu iluminação plena e tornou-se mestra por direito próprio. Compilou a maioria dos termas (textos-tesouro) que Padmasambhava ocultou para serem revelados por gerações futuras. Tanto a escola Nyingma quanto Karma Kagyu a reconhecem como Buda feminina.

ObraTermas (compiladora) · Lady of the Lotus-Born (autobiografia)
№ 23 · CHINA HAN

Ban Zhao

45 – 116 d.C.
Confuciana

Primeira historiadora chinesa. Completou a História da Dinastia Han (Han Shu) iniciada por seu irmão Ban Gu. Escreveu Lições para Mulheres (Nüjie) — tratado sobre a virtude feminina lido como manual confuciano por mulheres chinesas durante 1.800 anos. Foi também conselheira da imperatriz Deng. Lição ambígua: definiu padrão de virtude feminina restritivo, mas demonstrou capacidade intelectual feminina ao mais alto nível.

ObrasLições para Mulheres · Han Shu (cap. completados)
№ 24 · CHINA SONG

Sun Bu'er

1119 – 1182
Alquimista taoísta

Uma dos Sete Imortais da escola Quanzhen (Verdade Completa) do taoismo. Escreveu poemas e tratados sobre alquimia interna (neidan) — incluindo um corpus específico para a alquimia feminina (nü dan), com técnicas adaptadas à fisiologia feminina. Antes dela, a alquimia taoísta era tratada como universal-masculina. Ela cria, pela primeira vez, espiritualidade somática diferenciada por gênero.

ObraTratado de Alquimia Interna Feminina
№ 25 · ÍNDIA

Andal

séc. IX
Vaishnava · Tamil

A única mulher entre os 12 Alvars (santos do sul da Índia devotados a Vishnu). Escreveu o Tiruppavai (30 hinos) e o Nachiar Tirumoli, hoje recitados todas as manhãs em templos vaishnavas. Recusou casar com qualquer humano, declarou-se esposa de Vishnu, e segundo a tradição foi absorvida pelo deus em forma humana no templo de Srirangam.

ObrasTiruppavai · Nachiar Tirumoli
№ 26 · TIBETE

Machig Labdrön

1055 – 1149
Vajrayana

Fundadora da linhagem Chöd (literalmente "cortar") — única tradição budista tibetana criada e revelada por uma mulher. A prática Chöd usa a visualização da própria oferta do corpo aos demônios para cortar o apego ao ego. Padmasambhava a profetizou como reencarnação de Yeshe Tsogyel. Estima-se que 1.263 de seus discípulos atingiram a iluminação — número possivelmente superior ao do próprio Buda.

TradiçãoChöd (linhagem ainda viva)
№ 27 · ÍNDIA

Akka Mahadevi

c. 1130 – 1160
Bhakti shaivita

Poeta-santa kannada do movimento Lingayat de Karnataka. Aos 12 anos, foi forçada a casar com um rei. Aos 16, abandonou marido, palácio e roupas — caminhou nua, coberta apenas pelos cabelos, em devoção a Shiva (que ela chamava Chennamallikarjuna, "Senhor branco como jasmim"). Compôs cerca de 350 vachanas (poemas devocionais em prosa) — peças filosóficas curtas sobre o êxtase místico, a rejeição do social, a unidade última.

ObraVachanas (~350 sobreviventes)
№ 28 · CAXEMIRA

Lalleshwari (Lal Ded)

1320 – 1392
Shaivismo de Caxemira

Mística kashmiri, também caminhou nua. Sintetizou shaivismo de Caxemira com sufismo persa — a ponto de hindus e muçulmanos a reverenciarem igualmente. Seus vakhs (versos de quatro linhas em kashmiri) são as primeiras composições poéticas conhecidas da língua. Filosoficamente: monismo radical, rejeição de rituais externos, ênfase na experiência direta. "Não importa em qual direção te volte: lá está Shiva."

ObraVakhs (~258 sobreviventes)
№ 29 · ÍNDIA

Mirabai

1498 – 1547
Bhakti vaishnava

Princesa rajput nascida em Mewar. Casou-se contrariada — declarou-se esposa eterna de Krishna. Resistiu a tentativas de envenenamento da família real, abandonou a corte, perambulou cantando bhajans (cânticos devocionais) em todo o norte da Índia. Suas mais de 1.300 composições atribuídas continuam sendo cantadas — provavelmente a poetisa religiosa mais cantada na Índia atual.

Obra~1.300 bhajans atribuídos
№ 30 · ALEMANHA

Hildegarda de Bingen

1098 – 1179
Mística · Beneditina

"Sibila do Reno". Abadessa de dois mosteiros que ela própria fundou. Polímata: teóloga (Scivias), compositora (cuja obra musical sobrevive completa), médica e botânica (Physica e Causae et Curae), filósofa natural. Visões místicas que ela registra com precisão fenomenológica. Doutora da Igreja desde 2012. Provavelmente a primeira mulher europeia com obra filosófica sistemática sobrevivente.

ObrasScivias · Liber Divinorum Operum · Causae et Curae · Symphonia (música)
№ 31 · ALEMANHA

Mechthild de Magdeburgo

c. 1207 – 1282
Beguina · Mística

Beguina (movimento religioso feminino leigo) que escreveu A Luz Fluente da Divindade em médio-baixo alemão — primeira grande obra mística vernacular da Europa. A alma como esposa do Deus-amante, em linguagem erótico-mística que escandalizou e inspirou. Influenciou Eckhart e a mística renana.

ObraA Luz Fluente da Divindade (Das fließende Licht)
№ 32 · FRANÇA

Marguerite Porete

c. 1250 – 1310
Beguina · Mística radical

Escreveu O Espelho das Almas Simples — manual místico que descreve sete estágios pelos quais a alma se aniquila em Deus, tornando-se ela própria Deus. Recusou-se a retratar-se ou modificar o livro. Foi queimada viva em Paris em 1310 — uma das primeiras vítimas da Inquisição francesa. O livro circulou anônimo por 600 anos antes de ser atribuído a ela em 1946.

ObraLe Mirouer des simples âmes (1295)
№ 33 · INGLATERRA

Juliana de Norwich

1342 – c. 1416
Anacoreta · Mística

Anacoreta enclausurada na igreja de St. Julian em Norwich. Após uma quase-morte aos 30 anos, teve 16 visões ("revelações") sobre o amor de Deus. Escreveu Revelações do Amor Divino — primeiro livro escrito em inglês por uma mulher conhecida. Defende uma teologia maternal: Deus é também mãe, Cristo é mãe da alma. "Tudo será bem, tudo será bem, e toda manner of thing será bem."

ObraRevelações do Amor Divino (versão longa, c. 1395)
№ 34 · ITÁLIA

Catarina de Siena

1347 – 1380
Dominicana · Mística política

Mística e política. Aconselhou (e ralhou com) o papa Gregório XI por escrito até convencê-lo a deixar Avignon e voltar a Roma — feito imenso para uma mulher de 29 anos. Doutora da Igreja desde 1970. Suas Cartas e o Diálogo da Divina Providência combinam misticismo e teologia política sofisticada.

ObrasDiálogo da Divina Providência · Cartas (~380)
№ 35 · FRANÇA / ITÁLIA

Christine de Pizan

1364 – 1430
Filósofa renascentista

Italiana criada na corte francesa de Carlos V. Viúva aos 25 anos, sustentou três filhos pela escrita — primeira mulher europeia a viver de sua pena. Em 1405, publicou O Livro da Cidade das Damas — primeira defesa filosófica sistemática da igualdade intelectual feminina. Construiu uma "cidade" alegórica habitada por todas as grandes mulheres da história. Deu início à Querela das Mulheres, debate europeu de 300 anos.

ObraO Livro da Cidade das Damas (1405)
№ 36 · JAPÃO HEIAN

Murasaki Shikibu

c. 970 – 1031
Letrada · Heian

Dama da corte da imperatriz Shoshi. Escreveu O Conto de Genji — frequentemente chamado de o primeiro romance psicológico do mundo. 54 capítulos, mais de 400 personagens, exploração filosófica do mono no aware (a melancolia das coisas), do tempo, da impermanência, do desejo. Um dos textos fundadores da estética e da ética japonesas.

ObraGenji Monogatari (O Conto de Genji)
№ 37 · JAPÃO HEIAN

Sei Shōnagon

c. 966 – 1017
Letrada · Heian

Dama da corte rival da de Murasaki. Escreveu O Livro do Travesseiro (Makura no Sōshi) — gênero literário inteiramente novo: zuihitsu, "seguir o pincel". Listas, observações, fragmentos filosóficos, estética da fugacidade. Seu olhar agudo sobre o belo e o ridículo definiu o gosto japonês. Filosoficamente: uma fenomenologia do gosto e da percepção.

ObraO Livro do Travesseiro (Makura no Sōshi)
№ 38 · ESPANHA

Teresa de Ávila

1515 – 1582
Carmelita · Mística reformadora

Reformou a ordem carmelita criando os Carmelitas Descalços. Escreveu O Livro da Vida (autobiografia mística) e O Castelo Interior (obra-prima da mística sistemática: a alma como castelo de sete moradas concêntricas). Doutora da Igreja desde 1970 — primeira mulher a receber o título. Defensora vigorosa do direito feminino à contemplação avançada.

ObrasCastelo Interior · Vida · Caminho de Perfeição
№ 39 · MÉXICO

Sor Juana Inés de la Cruz

1648 – 1695
Letrada · Nova Espanha

Freira e poetisa mexicana. Aos 5 anos lia em latim. Aos 15 era a maior mente do vice-reinado. Entrou para o convento porque era o único modo de continuar estudando. Escreveu Resposta a Sóror Filotéia — defesa filosófica do direito das mulheres ao saber. Primeiro Sueño — poema filosófico-cósmico sobre a alma em busca do conhecimento. Foi forçada a calar nos últimos anos. Morreu cuidando de outras freiras na peste.

ObrasResposta a Sóror Filotéia · Primeiro Sueño
№ 40 · BOÊMIA

Elisabeth da Boêmia

1618 – 1680
Cartesiana

Princesa palatina exilada em Haia. Em 1643, escreveu a Descartes pedindo que explicasse como a alma imaterial pode mover o corpo material. Descartes — incomodado — não conseguiu responder satisfatoriamente. A correspondência (sobrevivente) é o primeiro grande questionamento ao dualismo cartesiano e levou Descartes a escrever As Paixões da Alma, dedicado a ela. Sem Elisabeth, não há filosofia das paixões em Descartes.

CorrespondênciaCartas a Descartes (1643–1649)
№ 41 · INGLATERRA

Margaret Cavendish

1623 – 1673
Materialista · Vitalista

Duquesa de Newcastle. Primeira mulher a publicar livros de filosofia natural sob seu próprio nome na Inglaterra. Escreveu Observations upon Experimental Philosophy, Philosophical Letters, e a primeira ficção científica em inglês — The Blazing World. Defendeu materialismo vitalista (matéria pensante) contra Descartes e Hobbes. Primeira mulher a visitar a Royal Society (1667).

ObrasPhilosophical Letters · The Blazing World · Observations
№ 42 · INGLATERRA

Anne Conway

1631 – 1679
Platonista de Cambridge

Sofreu de dores de cabeça crônicas a vida toda. Estudou intensamente filosofia, hebraico, cabala. Escreveu Princípios da Filosofia Mais Antiga e Moderna (publicado anonimamente em 1690 após sua morte) — sistema metafísico monista que influenciou Leibniz (que a citou explicitamente como influência sobre suas mônadas). Espírito e matéria como graus de uma única substância viva.

ObraPrincipia philosophiae antiquissimae et recentissimae (1690)
№ 43 · INGLATERRA

Mary Astell

1666 – 1731
Proto-feminista anglicana

Em 1694 propôs a criação de "uma espécie de mosteiro protestante" — academia residencial para mulheres dedicada à filosofia, ciência e teologia. A Serious Proposal to the Ladies. Em 1700, em Some Reflections upon Marriage: "Se todos os homens são livres por nascimento, como é que todas as mulheres nascem escravas?" — pergunta filosófica que precede Wollstonecraft em quase um século.

ObrasA Serious Proposal to the Ladies · Some Reflections upon Marriage
№ 44 · FRANÇA

Émilie du Châtelet

1706 – 1749
Iluminista · Newtoniana

Marquesa francesa. Tradutora dos Principia de Newton para o francês — tradução ainda em uso hoje, com comentários originais que estabeleceram a versão newtoniana da mecânica na França. Mais: previu corretamente que a luz infravermelha existia. Companheira intelectual de Voltaire. Morreu aos 42 dando à luz aos 5 filhos.

ObrasTradução comentada dos Principia · Institutions de Physique
№ 45 · INGLATERRA

Mary Wollstonecraft

1759 – 1797
Feminista · Iluminista

Em 1792 publicou A Vindicação dos Direitos da Mulher — primeiro tratado filosófico sistemático em inglês defendendo a educação plena das mulheres e a igualdade racional. Argumentou contra Rousseau (que defendia educação diferenciada). Morreu aos 38 ao dar à luz Mary Shelley (autora de Frankenstein). Pedra fundadora do feminismo filosófico moderno.

ObraA Vindication of the Rights of Woman (1792)
№ 46 · INGLATERRA

Harriet Taylor Mill

1807 – 1858
Liberal · Utilitarista

Companheira intelectual de John Stuart Mill por décadas antes de se casarem. O próprio Mill atribuiu a ela co-autoria de Sobre a Liberdade (1859) e ideias centrais de A Sujeição das Mulheres (1869). Suas próprias Enfranchisement of Women (1851) é tratado pioneiro do feminismo liberal. Foi sistematicamente desacreditada após sua morte — só nas últimas décadas seu papel é reconhecido.

ObraEnfranchisement of Women (1851)
№ 47 · EUA

Sojourner Truth

c. 1797 – 1883
Abolicionista · Feminista negra

Nascida escrava em Nova York como Isabella Baumfree. Fugiu em 1826. Em 1843, mudou o nome para Sojourner Truth e tornou-se pregadora itinerante. Em 1851, no Convenção de Direitos das Mulheres em Akron, Ohio, fez o discurso "E não sou eu uma mulher?" — peça filosófica oral que une feminismo, abolicionismo e crítica à definição branca do "feminino". Pioneira do que viria a ser interseccionalidade.

Discurso"Ain't I a Woman?" (1851)
№ 48 · EUA

Sarah Margaret Fuller

1810 – 1850
Transcendentalista

Primeira mulher do círculo transcendentalista americano (com Emerson, Thoreau). Editora da revista The Dial. Escreveu Mulher no Século XIX (1845) — defesa da plena igualdade intelectual e profissional feminina na chave transcendentalista. Morreu aos 40 em naufrágio voltando da Itália, onde participara da revolução de 1848.

ObraWoman in the Nineteenth Century (1845)
№ 49 · RÚSSIA / EUA / ÍNDIA

Helena Blavatsky

1831 – 1891
Teosofia

Aristocrata russa, viajou pelo mundo (incluindo, segundo ela, longas estadas no Tibete). Em 1875 fundou em Nova York a Sociedade Teosófica com Henry Olcott. Escreveu Isis sem Véu (1877) e A Doutrina Secreta (1888) — síntese monumental entre filosofia oriental, ocidental, ciência moderna e ocultismo. Trouxe para o Ocidente moderno termos como karma, reencarnação, chakras. Influenciou Yeats, Kandinsky, Mondrian, Krishnamurti.

ObrasIsis sem Véu · A Doutrina Secreta · A Voz do Silêncio
№ 50 · INGLATERRA / ÍNDIA

Annie Besant

1847 – 1933
Teosofia · Política

Sucessora de Blavatsky. Presidente da Sociedade Teosófica de 1907 até a morte. Mudou-se para a Índia, defendeu a independência indiana, fundou o Indian Home Rule Movement (com Tilak). Reconheceu Krishnamurti como "veículo do mestre mundial" — depois ele rejeitou esse papel. Escritora prolífica em filosofia oriental, ética, educação.

ObrasPensamento Esotérico · A Sabedoria Antiga · Estudos sobre o Pensamento
№ 51 · EUA / ÍNDIA

Alice Bailey

1880 – 1949
Teosofia esotérica

Britânica nascida, naturalizada americana. Após romper com a Sociedade Teosófica, fundou a Escola Arcana e ditou (segundo ela) 24 livros do "Tibetano" (Djwhal Khul). Sistematizou o "raio-iogue" e a "meditação ocidental". Influenciou o Movimento Nova Era, terapias transpessoais, ecumenismo religioso do séc. XX.

ObrasIniciação Humana e Solar · Tratado sobre os Sete Raios (5 vols.)
№ 52 · RÚSSIA / ÍNDIA

Helena Roerich

1879 – 1955
Agni Yoga

Russa estabelecida na Índia (Vale de Kullu). Junto com o marido Nicholas Roerich, criou o sistema do Agni Yoga ou "Ética Viva" — síntese de teosofia, budismo tibetano e cristianismo místico em 14 livros. Traduziu para o russo a Doutrina Secreta de Blavatsky. Fundou o Pacto Roerich (proteção internacional do patrimônio cultural).

ObrasAgni Yoga (14 livros) · Tradução da Doutrina Secreta
№ 53 · ÍNDIA

Anandamayi Ma

1896 – 1982
Mística hindu

Mística bengali considerada por muitos a mais venerada santa hindu do séc. XX. Sem educação formal, falava de vedanta, advaita, bhakti com fluência. Atraiu seguidores como Indira Gandhi, Sri Aurobindo, Paramahansa Yogananda. Aldous Huxley escreveu sobre ela. Sua filosofia: a unidade última (kheyala) que se manifesta como brincadeira (lila) divina.

DiscípulosIndira Gandhi · Yogananda · Aldous Huxley (admirador)
№ 54 · ÍNDIA / FRANÇA

Mirra Alfassa (The Mother)

1878 – 1973
Yoga integral

Francesa que se tornou companheira espiritual e co-fundadora da yoga integral com Sri Aurobindo. Após a morte dele em 1950, dirigiu sozinha o ashram de Pondicherry e fundou Auroville (1968) — cidade experimental para a unidade humana. Suas Conversações e L'Agenda (registros minuciosos de experiências em consciência) são documentos filosóficos únicos.

ObrasL'Agenda (13 vols.) · Conversations · Founder of Auroville
№ 55 · EUA

Jane Addams

1860 – 1935
Pragmatista · Reformadora

Co-fundadora da Hull House em Chicago — primeira settlement house dos EUA. Pragmatista contemporânea de Dewey e James. Escreveu Democracy and Social Ethics (1902). Nobel da Paz em 1931. Pioneira da sociologia americana e da filosofia política aplicada. Frequentemente excluída do cânone pragmatista por ser mulher e ativista.

ObrasDemocracy and Social Ethics · Twenty Years at Hull-House
№ 56 · ALEMANHA / POLÔNIA

Edith Stein

1891 – 1942
Fenomenologia

Discípula de Husserl, sua assistente em Friburgo. Escreveu sua tese Sobre o Problema da Empatia (1916). Convertida do judaísmo ao catolicismo, tornou-se carmelita descalça (Teresa Benedicta da Cruz). Escreveu Ser Finito e Ser Eterno. Capturada na Holanda, morta em Auschwitz em 1942. Canonizada em 1998. Co-padroeira da Europa.

ObrasSobre o Problema da Empatia · Ser Finito e Ser Eterno
№ 57 · FRANÇA

Simone Weil

1909 – 1943
Mística política

Filósofa francesa de origem judaica. Trabalhou em fábricas para entender a condição operária. Lutou na Guerra Civil Espanhola. Sua filosofia une marxismo, cristianismo místico e platonismo. Conceitos centrais: atenção, espera (attente), gravidade, graça. Morreu aos 34 em exílio em Londres, recusando comer mais do que franceses ocupados podiam.

ObrasA Gravidade e a Graça · A Espera de Deus · A Condição Operária
№ 58 · ALEMANHA / EUA

Hannah Arendt

1906 – 1975
Política

Discípula de Heidegger e Jaspers. Fugiu do nazismo. Analisou totalitarismo (nazismo e stalinismo) como fenômeno político novo. A Condição Humana (1958): vita activa em três modos — labor, trabalho, ação. Eichmann em Jerusalém (1963): "banalidade do mal". Recusou-se a ser chamada de filósofa: "sou teórica política".

ObrasOrigens do Totalitarismo · A Condição Humana · Eichmann em Jerusalém
№ 59 · FRANÇA

Simone de Beauvoir

1908 – 1986
Existencialista · Feminista

"Não se nasce mulher, torna-se". O Segundo Sexo (1949) é o livro fundador do feminismo filosófico moderno: análise existencialista da condição feminina como "Outro" do homem. A Ética da Ambiguidade (1947): liberdade existencial e responsabilidade. Companheira intelectual de Sartre por toda a vida — relação aberta documentada em cartas e memórias.

ObrasO Segundo Sexo · A Ética da Ambiguidade · Memórias (4 vols.)
№ 60 · EUA

Susanne Langer

1895 – 1985
Filosofia da mente · Estética

Discípula de Whitehead. Sua Philosophy in a New Key (1942) propõe a forma simbólica como categoria fundamental da mente humana — música, ritual e mito como modos cognitivos tão sérios quanto a ciência. Mind: An Essay on Human Feeling (3 vols., 1967–1982) tenta unificar fenomenologia e biologia da mente. Pioneira esquecida da filosofia da mente americana.

ObrasPhilosophy in a New Key · Feeling and Form · Mind
№ 61 · INGLATERRA

Iris Murdoch

1919 – 1999
Ética · Romance filosófico

Primeira do "quarteto de Oxford" (com Anscombe, Foot, Midgley) que reabriu a filosofia moral aos problemas concretos no pós-guerra. Sua The Sovereignty of Good (1970) reabilita Platão e a ideia do Bem como atenção amorosa à realidade. Romance filosófico em Sob a Rede, O Mar, o Mar. Padroeira do realismo moral.

ObrasThe Sovereignty of Good · Metaphysics as a Guide to Morals
№ 62 · INGLATERRA

Elizabeth Anscombe

1919 – 2001
Ética · Filosofia da mente

Discípula e tradutora de Wittgenstein. Suas Investigações Filosóficas em inglês são tradução dela. Publicou Intention (1957) — peça fundadora da filosofia da ação. Em Modern Moral Philosophy (1958) cunhou o termo "ética da virtude" e diagnosticou o vácuo da ética moderna sem Deus. Católica devota e mãe de sete filhos.

ObrasIntention · Modern Moral Philosophy (artigo seminal)
№ 63 · INGLATERRA

Philippa Foot

1920 – 2010
Ética da virtude

Inventou o "trolley problem" (problema do bonde) em 1967 — experimento mental hoje central em ética e debates sobre IA. Sua Natural Goodness (2001) reabilita o naturalismo aristotélico: a ética é parte da história natural humana. Co-fundou a Oxfam. Crítica do utilitarismo e do não-cognitivismo moral.

ObrasVirtues and Vices · Natural Goodness
№ 64 · INGLATERRA

Mary Midgley

1919 – 2018
Ética · Filosofia da ciência

Última do quarteto de Oxford a publicar — só começou a escrever após a meia-idade. Beast and Man (1978): natureza humana e animalidade. Crítica feroz do reducionismo científico (Dawkins, Wilson). Para ela, mitos e ciência são linguagens complementares. Continuou ensaísta brilhante até morrer aos 99 anos.

ObrasBeast and Man · The Myths We Live By
№ 65 · TIBETE / EUA

Tsultrim Allione

1947 –
Vajrayana ocidental

Primeira americana ordenada monja budista tibetana (em 1970, pelo 16º Karmapa). Posteriormente devolveu os votos para se casar e criar três filhos. Reconhecida pelo lama Karma Dorje Rinpoche em 2007 como emanação de Machig Labdrön. Autora de Mulheres de Sabedoria (1984) — primeira recuperação ocidental das vidas de yoginis tibetanas. Fundou o centro Tara Mandala no Colorado.

ObrasMulheres de Sabedoria · Alimentando Seus Demônios · Wisdom Rising
№ 66 · EUA

Pema Chödrön

1936 –
Budismo Shambhala

Monja budista americana, discípula de Chögyam Trungpa Rinpoche. Diretora-fundadora do Gampo Abbey em Nova Escócia. Suas obras (When Things Fall Apart, The Places That Scare You) tornaram-se entradas populares ao budismo tibetano no Ocidente. Filosofia: prática da maitri (bondade amorosa para consigo) como base para todas as outras.

ObrasWhen Things Fall Apart · The Places That Scare You
№ 67 · EUA

Martha Nussbaum

1947 –
Ética das capacidades

Junto com Amartya Sen, desenvolveu a abordagem das capacidades — quadro normativo que avalia justiça pelo que pessoas conseguem efetivamente fazer e ser. A Fragilidade da Bondade (1986) reabilita Aristóteles para a contemporaneidade. Mulheres e Desenvolvimento Humano (2000) aplica o quadro a injustiças globais de gênero.

ObrasA Fragilidade da Bondade · Mulheres e Desenvolvimento Humano · Fronteiras da Justiça
№ 68 · EUA

Judith Butler

1956 –
Teoria queer

Problemas de Gênero (1990) reescreveu o pensamento sobre identidade: gênero como performatividade, não essência. Cita Beauvoir, Foucault, Lacan. Trouxe o pós-estruturalismo ao feminismo. Posteriormente, sua filosofia política (Quadros de Guerra, Vida Precária) analisa quem conta como "vida lamentável" no discurso público contemporâneo.

ObrasProblemas de Gênero · Vida Precária · Quadros de Guerra
№ 69 · EUA

Angela Davis

1944 –
Marxista feminista negra

Discípula de Marcuse e Adorno em Frankfurt. Filósofa, ativista, ex-militante dos Panteras Negras. Encarcerada injustamente em 1970, absolvida em 1972. Mulheres, Raça e Classe (1981) é tratado-marco da interseccionalidade. Pioneira do abolicionismo penal contemporâneo. Continua ativa.

ObrasMulheres, Raça e Classe · Estarão as Prisões Obsoletas?
№ 70 · EUA

bell hooks

1952 – 2021
Feminismo negro · Pedagogia

Pseudônimo grafado em letras minúsculas (em homenagem à bisavó). Não Sou Eu uma Mulher? (1981) — feminismo negro a partir do discurso de Sojourner Truth. Ensinando a Transgredir (1994) — pedagogia crítica feminista. Desenvolveu a noção de "amor radical" como prática política. Mais de 30 livros que cruzam filosofia, feminismo, cultura, educação.

ObrasNão Sou Eu uma Mulher? · Ensinando a Transgredir · Tudo sobre o Amor
№ 71 · BRASIL

Lélia Gonzalez

1935 – 1994
Feminismo afro-brasileiro

Filósofa, antropóloga, política. Pioneira do feminismo negro latinoamericano. Conceitos de amefricanidade (identidade negra das Américas) e pretuguês (a língua portuguesa atravessada pelas africanidades). Releitura de Lacan e Fanon a partir do Brasil. Releitura de Lacan e Fanon a partir do Brasil negro. Hoje cada vez mais lida internacionalmente.

ObrasLugar de Negro · Por um Feminismo Afro-Latino-Americano (ensaios)
№ 72 · BRASIL

Sueli Carneiro

1950 –
Feminismo afro-brasileiro

Doutora em filosofia da educação pela USP. Fundou o Geledés — Instituto da Mulher Negra (1988), um dos mais importantes centros de pensamento e ação feminista negra do Brasil. Cunhou a noção de "epistemicídio" — o assassinato sistemático dos saberes negros. Racismo, Sexismo e Desigualdade no Brasil é referência.

ObrasRacismo, Sexismo e Desigualdade · Escritos de uma Vida
№ 73 · BRASIL

Marilena Chauí

1941 –
Filosofia política · Espinosa

Maior especialista brasileira em Espinosa. Sua A Nervura do Real (2 vols.) é trabalho monumental. Em filosofia política: Cultura e Democracia (1981), Brasil: Mito Fundador e Sociedade Autoritária (2000). Foi secretária de cultura de São Paulo. Professora emérita da USP.

ObrasA Nervura do Real · Brasil: Mito Fundador · Cultura e Democracia
№ 74 · JAPÃO

Mugai Nyodai

1223 – 1298
Zen Rinzai

Primeira mestra zen japonesa documentada a receber a transmissão do dharma. Filha da nobreza Hojo, tornou-se monja após a morte do marido. Discípula de Wuxue Zuyuan (mestre chinês trazido ao Japão). Fundou o Keiaiji, primeiro mosteiro zen feminino do Japão. Ensinou que o caminho zen não tem gênero. Sua transmissão é contestada por alguns historiadores, mas é sustentada pela tradição Rinzai.

LegadoFundação do Keiaiji · Primeira mestra zen feminina do Japão
№ 75 · ALEMANHA / EUA

Karen Horney

1885 – 1952
Psicanálise · Filosofia da mente

Psicanalista alemã que rompeu com Freud em pontos centrais. Recusou a "inveja do pênis" como categoria universal. Em Feminine Psychology (1922–1937), defendeu que a desigualdade social — não a anatomia — produz a "psicologia feminina". Pioneira da psicologia social humanista, influenciou Karen Horney e o feminismo psicanalítico subsequente.

ObrasFeminine Psychology · Neurosis and Human Growth
№ 76 · BÉLGICA / FRANÇA

Luce Irigaray

1930 –
Filosofia da diferença sexual

Discípula crítica de Lacan, expulsa da Escola Freudiana após Speculum, de l'autre femme (1974) — relê Platão, Freud, Hegel mostrando que a tradição filosófica ocidental é construída pela exclusão simbólica do feminino. Defende uma "ética da diferença sexual" baseada em duas subjetividades irredutíveis. Crítica radical do "neutro" que sempre foi masculino.

ObrasSpeculum · Ética da Diferença Sexual · Eu, Tu, Nós
№ 77 · BULGÁRIA / FRANÇA

Julia Kristeva

1941 –
Semiótica · Psicanálise

Búlgara naturalizada francesa. Em Poderes do Horror (1980) cunhou a noção de abjeto — o que se cospe para fora do corpo simbólico, mas continua marginal. Estrangeiros para Nós Mesmos (1988): a alteridade do estrangeiro como espelho da alteridade interna. Combina Hegel, Lacan, fenomenologia e linguística numa síntese própria.

ObrasPoderes do Horror · Estrangeiros para Nós Mesmos
№ 78 · ALEMANHA / EUA

Donna Haraway

1944 –
Filosofia da ciência · Tecnoecologia

"Manifesto Ciborgue" (1985): a fronteira entre humano, animal e máquina já foi atravessada — a política tem que aceitar essa hibridação. Staying with the Trouble (2016): em vez de transcender ou desistir, "ficar com o problema" da era ecológica. Filosofia entrelaçada com biologia, feminismo, ficção científica.

ObrasManifesto Ciborgue · Staying with the Trouble
№ 79 · ESPANHA / EUA

Maria Zambrano

1904 – 1991
Razão poética

Discípula de Ortega y Gasset. Exilada após a Guerra Civil Espanhola — passou décadas em Cuba, México, Itália. Desenvolveu a "razão poética" — modo de pensamento que não opõe filosofia e poesia, sentimento e conceito. Filosofia y Poesía (1939). Claros del Bosque (1977). Prêmio Cervantes 1988. Voltou a Espanha em 1984 após 45 anos de exílio.

ObrasFilosofia y Poesía · Claros del Bosque · El Hombre y lo Divino
№ 80 · NIGÉRIA / EUA

Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí

1957 –
Filosofia descolonial africana

Em The Invention of Women: Making an African Sense of Western Gender Discourses (1997), defende que "gênero" como categoria binária foi imposto pela colonização europeia em sociedades africanas (especialmente yoruba) que organizavam socialmente por idade, hierarquia familiar e função, não por sexo. Crítica radical à universalização ocidental do feminismo.

ObraThe Invention of Women
— Capítulo V —

Sete temas
recorrentes

Quando se olha para mil mulheres pensando em três continentes ao longo de três mil anos, certos padrões emergem.

/ TEMA I
Conhecer pelo Corpo

Quase todas reabilitam o corpo como locus do saber: tanto as místicas (Hildegarda, Teresa, Mira) quanto as fenomenólogas (Stein, Beauvoir) recusam a separação cartesiana entre mente desencarnada e corpo bruto. O conhecimento passa pelo sentir, sofrer, gestar. Sun Bu'er sistematiza alquimia interna feminina; Akka Mahadevi caminha nua porque o corpo é também escritura sagrada.

VozesHildegarda · Teresa · Beauvoir · Akka Mahadevi · Stein · Irigaray
/ TEMA II
Recusa do Casamento Convencional

Padrão notável: muitíssimas pensadoras escolheram solteirice, viuvez prolongada, casamento heterodoxo, ou monaquismo. Hipárquia escolheu Crates, o cínico, e viveu nas ruas. Andal recusou casamento humano. Catarina de Siena fez voto privado de virgindade aos 7. Sor Juana entrou no convento para estudar. Wollstonecraft viveu fora do casamento. Esse padrão diz algo: a estrutura matrimonial padrão era incompatível com a vida intelectual.

VozesHipárquia · Andal · Catarina · Sor Juana · Hildegarda · Wollstonecraft
/ TEMA III
O Amor como Caminho de Conhecimento

Diotima ensina Sócrates a "escada do amor". Rabi'a inventa o amor divino puro. Mira ama Krishna. Akka ama Chennamallikarjuna. Hildegarda canta a "viriditas", o verdejar da graça. Murdoch reabilita o amor como ato de atenção. Para muitas, o amor não é sentimento secundário ao saber — é o método pelo qual o real se desnuda.

VozesDiotima · Rabi'a · Mira · Akka · Murdoch · Hildegarda
/ TEMA IV
Atenção & Espera

Simone Weil definiu a atenção como mais alta forma de oração — e como o cerne do ato ético. Sei Shōnagon faz da atenção aos detalhes uma estética. Tsultrim Allione faz da escuta dos próprios "demônios" uma prática terapêutica. Murdoch chama atenção amorosa "ver a realidade como ela é". O olhar feminino milenar parece ter desenvolvido uma fenomenologia da atenção que a tradição masculina não codificou.

VozesWeil · Sei Shōnagon · Tsultrim Allione · Murdoch · Stein
/ TEMA V
Política como Cuidado

Catarina de Siena aconselha papas. Christine de Pizan defende as mulheres da história. Wollstonecraft funda os direitos. Arendt analisa a banalidade do mal. Davis denuncia o complexo carcerário. Lélia Gonzalez nomeia a amefricanidade. A política, nas mulheres, raramente é abstrata — é prática, situada, conectada ao corpo concreto que sofre.

VozesCatarina · Pizan · Wollstonecraft · Arendt · Davis · Gonzalez
/ TEMA VI
Síntese entre Tradições

Mulheres frequentemente operam como pontes culturais. Lalleshwari sintetiza shaivismo e sufismo. Blavatsky funde Oriente e Ocidente. Yeshe Tsogyel preserva tanto Bön quanto budismo. Edith Stein cruza fenomenologia e mística carmelita. Anne Conway combina cabala e platonismo. Sor Juana atravessa escolástica e nova ciência. A periferia das instituições masculinas, paradoxalmente, libera para a síntese.

VozesLalleshwari · Blavatsky · Tsogyel · Stein · Conway · Sor Juana
/ TEMA VII
Hiperaprendizado em Espaços Negados

Quando o acesso à educação foi negado, mulheres aprenderam mais. Sor Juana lia em latim aos 5. Murasaki dominou chinês mais rápido que o irmão. Émilie du Châtelet traduziu Newton. Stein escrevia tese aos 25. Hipátia dominava Diofanto. O padrão se repete por dois mil anos: quando a sociedade dificulta, a inteligência feminina compensa pela intensidade. A história da filosofia feminina é, em parte, uma história de hiperexcelência forçada.

VozesSor Juana · Murasaki · Châtelet · Stein · Hipátia · Pizan
— Capítulo VI —

Obras-marco

Quarenta livros escritos por mulheres que mudaram (ou deveriam ter mudado) a história do pensamento.

ObraAutoraAnoTradição
Hinos do Rigveda (Mandala X)Ghosha · Apala · Lopamudrac. 1000 a.C.Védica
Diálogos no Brihadaranyaka UpanishadGargi · Maitreyic. 700 a.C.Upanishádica
Hino a AfroditeSappho de Lesbosc. 600 a.C.Grega
Diálogo no Mahabharata, Shanti Parva 308Sulabhac. 500 a.C.Indiana
Therigatha (canções das anciãs)Mahapajapati · Khema · outrasc. 500 a.C.Budista
Banquete (diálogo de Diotima)Diotima de Mantineac. 380 a.C.Grega
Lições para Mulheres (Nüjie)Ban Zhaoc. 100 d.C.Confuciana
Comentários a Diofanto e ApolônioHipátia de Alexandriac. 400Neoplatônica
Aforismos sobre o Amor DivinoRabi'a al-Adawiyyac. 770Sufi
Tiruppavai · Nachiar TirumoliAndalc. 850Bhakti tamil
Lady of the Lotus-Born (autobiografia)Yeshe Tsogyelséc. IXVajrayana
Genji Monogatari (O Conto de Genji)Murasaki Shikibuc. 1010Heian
O Livro do TravesseiroSei Shōnagonc. 1002Heian
Tratado de Alquimia Interna FemininaSun Bu'erséc. XIITaoísta
SciviasHildegarda de Bingen1141–1151Mística cristã
VachanasAkka Mahadeviséc. XIIBhakti shaivita
A Luz Fluente da DivindadeMechthild de Magdeburgo1250Beguina
O Espelho das Almas SimplesMarguerite Poretec. 1295Mística radical
VakhsLalleshwari (Lal Ded)séc. XIVShaivismo Caxemira
Diálogo da Divina ProvidênciaCatarina de Sienac. 1378Mística católica
Revelações do Amor DivinoJuliana de Norwichc. 1395Mística inglesa
O Livro da Cidade das DamasChristine de Pizan1405Querela
Bhajans devocionais a KrishnaMirabaiséc. XVIBhakti
Castelo InteriorTeresa de Ávila1577Mística carmelita
Cartas a DescartesElisabeth da Boêmia1643–1649Cartesiana
Resposta a Sóror Filotéia · Primeiro SueñoSor Juana Inés de la Cruz1691Barroco mexicano
Princípios da Filosofia (Conway)Anne Conway1690 (póst.)Platonismo Cambridge
A Serious Proposal to the LadiesMary Astell1694Proto-feminista
Tradução comentada dos PrincipiaÉmilie du Châtelet1759 (póst.)Iluminismo
A Vindicação dos Direitos da MulherMary Wollstonecraft1792Feminismo iluminista
Mulher no Século XIXSarah Margaret Fuller1845Transcendentalismo
Discurso "Ain't I a Woman?"Sojourner Truth1851Abolicionismo
A Doutrina SecretaHelena Blavatsky1888Teosofia
Sobre o Problema da EmpatiaEdith Stein1916Fenomenologia
A Gravidade e a GraçaSimone Weil1947 (póst.)Mística política
O Segundo SexoSimone de Beauvoir1949Existencialismo
A Condição HumanaHannah Arendt1958Política
The Sovereignty of GoodIris Murdoch1970Ética
Speculum, de l'autre femmeLuce Irigaray1974Diferença sexual
Mulheres, Raça e ClasseAngela Davis1981Feminismo negro
Manifesto CiborgueDonna Haraway1985Tecnoecologia
A Fragilidade da BondadeMartha Nussbaum1986Ética das capacidades
Problemas de GêneroJudith Butler1990Teoria queer
Por um Feminismo Afro-Latino-AmericanoLélia Gonzalez1988Brasileira
— Capítulo VII —

Conceitos femininos

Termos cunhados por mulheres ou particularmente desenvolvidos por elas.

Β
Brahmavadini

sânscrito · "expositora do Brahman"

Termo sânscrito para mulher conhecedora de Brahma Vidya — sabedoria suprema. Gargi, Maitreyi e Sulabha são as brahmavadinis arquetípicas. A mera existência do termo na tradição védica desmente a ideia de que filosofia indiana antiga era exclusivamente masculina.

M
Mahabba

árabe · "amor"

Cunhado por Rabi'a al-Adawiyya. O amor de Deus por si mesmo, sem temor do inferno nem desejo do paraíso. Doutrina que se tornou central em todo o sufismo posterior. Antes de Rabi'a, o asceticismo islâmico era movido pelo medo. Depois dela, pelo amor.

A
Abjeto

francês · l'abject (Kristeva)

Conceito de Julia Kristeva. O que é cuspido para fora do corpo simbólico (cadáver, fluidos, comida apodrecida) mas continua à beira, ameaçando. Categoria-chave para pensar racismo, xenofobia, homofobia — todos modos de "abjetar" o outro.

P
Performatividade de Gênero

teoria queer · Butler

De Judith Butler. Gênero não é essência nem expressão de algo interior, é o efeito de atos repetidos que parecem expressar uma essência. A repetição constrói a ilusão da naturalidade. Conceito que reescreveu a teoria feminista.

A
Amefricanidade

português · Lélia Gonzalez

Cunhado por Lélia Gonzalez. A identidade negra das Américas — não africana pura nem americana branca, mas uma síntese histórica criada na diáspora. Conceito que recusa simultaneamente o eurocentrismo e a idealização nostálgica da África.

B
Banalidade do Mal

alemão · Banalität des Bösen

Hannah Arendt no julgamento de Eichmann (1961). O mal extremo pode vir não de monstros sádicos, mas de funcionários medianos incapazes de pensar criticamente. Conceito que reescreveu a filosofia moral pós-Holocausto.

A
Atenção

francês · attention (Weil)

Para Simone Weil, a forma mais alta de oração e a base de toda ética. Atenção é "esperar pela verdade sem nada querer", esvaziando-se para que o outro possa aparecer. Não é concentração ativa — é receptividade radical.

C
Capacidades

capabilities (Nussbaum & Sen)

Quadro normativo desenvolvido por Martha Nussbaum (com Amartya Sen). Avalia justiça pelo que pessoas concretas conseguem efetivamente fazer e ser, não pela renda ou recursos abstratos. Lista de 10 capacidades centrais.

V
Viriditas

latim · "verdor"

Cunhado por Hildegarda de Bingen. A "verdejância" — força vital divina que faz a alma e o mundo florescerem. Junta cosmologia, teologia e biologia numa metáfora botânica. A graça não é abstrata: é seiva.

N
Neti Neti

sânscrito · "não isso, não isso"

Método de negação metafísica usado por Gargi Vachaknavi nos Upanishads. O Brahman não pode ser definido positivamente — só negativamente, eliminando todas as identificações limitadas. Antecipa em 2.500 anos a teologia apofática de Mestre Eckhart.

É
Empatia (Einfühlung)

alemão · Edith Stein

Tese de Edith Stein (1916). Empatia não é simpatia (sentir o que o outro sente) nem projeção (atribuir-lhe meus sentimentos). É um ato sui generis de captar a vida vivida do outro como vivida-pelo-outro. Categoria fenomenológica fundamental.

L
Lila

sânscrito · "jogo divino"

Conceito particularmente desenvolvido por Anandamayi Ma e pela tradição vaishnava feminina. O cosmos como jogo livre do absoluto consigo mesmo. A vida como brincadeira (não-séria) do divino, que se torna séria apenas quando esquecemos sua natureza lúdica.